quinta-feira, 3 de março de 2011

O OLHAR INSUFICIENTE DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA


A construção de um olhar demanda vários níveis de percepção. De um lado, há o observador; de outro, o que é observado. Em alguns momentos, próximos ou ao longe, aquele que relata a observação: o narrador. São os personagens (envolvidos – passiva ou ativamente – na narrativa), e os seus deslocamentos espaço-temporais, que delimitam a extensão do campo de visão e o que nele está inserido. Simultaneamente, é o olhar que localiza e reconhece esses elementos e as suas conexões.

Olhar é pensar, pesar a vastidão do campo que se abre diante da visão, mundo físico que se solidifica na liquidez da retina, percurso entre a (in)diferença e a ação. A “verdade”, essa ilusão do método, está impregnada de vários discursos, ideologias e conexões semânticas: na modernidade, instante em que o fragmento predomina, o olhar perde o foco e desloca-se para o periférico – juntamente com a noção de totalidade.1
Uma imagem é projetada, mas o que o olhar apreende é diverso – muitas vezes transformado em afastamento axiológico (compreender o que está acontecendo depende do diminuir de velocidade daquilo que a cada instante se desloca) e que  subtraí do observador – de certa forma, do objeto observado – o desejo e o gozo que originaram a visão e o olhar. Essa fratura fornece um cenário que nega a lição de Epicuro: os sentidos são os mensageiros do conhecimento (Apud NOVAES, 1988, 15).
O olhar está escrito/inscrito em um contexto que se ramifica (e se complementa) através das ausências e dos vazios, como se fosse um quebra-cabeças insolúvel: momento em que a estética da dispersão projeta-se entre os destroços resultantes do embate entre o fato e a miragem. 2
A cartografia do olhar implica em ir além da demarcação de fronteiras ou de certezas. Fornecer visibilidade ao aparente invisível, acolhendo as so(m)bras, as ausências e os prolongamentos secretos da matéria constituí um dos procedimentos do prover dimensão e espacialidade (além de outros elementos: cor, forma, altura, largura,  textura...) em objetos e imagens que, em um anterior tempo impreciso, aparentavam ser constituídos por traços aleatórios e inexatos. Ao visível se opõe o que está oculto pelo outro lado do corpo: é o olhar que identifica e reconhece essa “zona indeterminadas”. 
Nesse percurso, há um momento que assombra: inúmeras vezes o olhar não alcança resgatar a totalidade do que está ocorrendo diante dos olhos: a soma desse instante mostra-se diferente da soma proposta pela imagem contida/construída pelo olhar. 
Ocorre um desencontro: o olhar não vê – impedido/impelido por outras imagens ou pela redução da compreensão. Mais do que gravitar em torno da falta (de sentido, de percepção, de razão para a sua existência), a perplexidade do observador (indivíduo emanado do mundo das imagens) se estabelece através dos abismos da linguagem – da  cisão entre o que está ao alcance do olhar e o que se perdeu, da distância inacessível entre o que está próximo e o que está além. A dicotomia entre o visível (macro) e o invisível (micro) afasta o entendimento e revela um mundo fracionado. É o império da disjunção: olhar é recortar, dividir espaços, delimitar a territorialidade, estabelecer prioridades – ao mesmo tempo em que convida o olhar do leitor para uma viagem lúdica e lúcida pelas vertigens e voragens do desencontro entre a imagem e o deslumbramento. Tal percurso implica em um complexo operar entre o prazer e a dor. 3
Em O Crime do Professor de Matemática (LISPECTOR, 1993, 147-155), o olhar, mesmo nos raros momentos em que consegue abranger e acolher significativo número de elementos do discurso que o envolve, se mostra insuficiente. Ou seja, é incapaz de absorver os conteúdos (e, por extensão, as implicações ideológicas).
 A aterradora falta de visão com que o Professor de Matemática esconde e, simultaneamente, nega a sua culpa está contornada por uma densidade abjeta, construída para que esse impasse seja visualizado como um objeto a deriva na modernidade capitalista.


Síntese narrativa

Um homem, o Professor de Matemática, sobe a colina. No seu rosto, um par de óculos. Nos seus ombros, um saco pesado. No saco, um corpo. O corpo de um cão. Um cão que o Professor de Matemática encontrou morto, em uma esquina. O animal vai ser  enterrado. O Professor de Matemática, enquanto cava a sepultura, lembra de uma outra história. Lembra de um outro cão, o cão José, que ele abandonou, em um tempo não muito distante, em uma outra cidade.


O aluno

O Professor de Matemática é um adepto da  racionalidade como estrutura de vida – a análise fria dos números e a certeza algébrica constituem as características mais importantes de sua personalidade. As suas decisões sociais, assim como em uma equação matemática, sempre estiveram dimensionadas no imperativo categórico da lógica cartesiana (que impede os desvios emocionais e instaura a certeza, a correção e a eficiência).
Com o mesmo tipo de estrutura logocêntrica que adota na vida pública, o Professor de Matemática conduz a sua vida privada. É o encontro com o cadáver do cão desconhecido que coloca em xeque esse arcabouço consolidado pela negação das dúvidas. O cão morto produz um curto-circuito emocional.
Quando o Professor de Matemática, transgredindo com hábitos sociais cristalizados, decide promover um enterro “digno” ao cão desconhecido, caracteriza a expressão do seu luto – momento em que o sofrimento não pode mais ser contido pela psique e transborda simbolicamente para a realidade, através de lágrimas, mudanças de comportamento, sentimento de culpa, uso de roupas negras, etc... 4
O Professor de Matemática não é mais um homem que está enterrando um cão, é um homem que gostaria de enterrar o passado (apesar de não enterrar as lembranças que antecedem ao ritual mortuário) e que, ao enterrar o cão desconhecido, assenta mais uma camada de tijolos na muralha de indiferenças que construiu ao redor de si mesmo (essa estrutura de contenção é uma rota de fuga para um local onírico onde a felicidade não precisa travar duelos com o sofrimento, o remorso e a incapacidade de pedir perdão).
Confirmando que as suas certezas são provisórias, o Professor de Matemática adquire ciência de um paradoxo: cada pá de terra que arremessa na cova (para encobrir e esconder o corpo do cão desconhecido), desenterra e revela um pouco do passado – agonia e culpa.


A ordem aritmética

O trabalho braçal (abrir a cova para enterrar o corpo do cão desconhecido) e as bifurcações do discurso e da culpa estabelecem os rudimentos de uma falsa premissa. Diante do horror causado pela noção de que cometeu uma falta grave, o Professor de Matemática não consegue equacionar, de maneira algébrica, os termos do seu discurso de defesa: mostra-se emocionalmente  inseguro, ansioso por respostas, incapaz de encontrar no mundo objetivo um escudo contra o que o atormenta.
Por isso, em uma atitude que beira o desespero, o Professor de Matemática ambiciona descobrir a si mesmo. É uma tarefa de difícil execução e que exige um novo ritual: re(l)atar, junto com o cão que é enterrado e desenterrado, as amarras com o passado, com as decisões que precisou tomar ao longo da vida, e, sobretudo, com os desacertos da existência. Desenterrar o cão, que ele acabou de enterrar, é o primeiro passo na direção desse reconstruir.
Condenado ao tempo imediato, que exige uma ligação afetiva com o contexto em que está inserido (entrecruzamento entre vida pessoal e história), o Professor de Matemática desperta da letargia e adquire consciência de que a ataraxia perdeu o seu poder de entorpecimento e de analgesia. Adquire, como compensação, o esclarecimento. E, de contrabando, a dor.


Kyno, philos

O Crime do Professor de Matemática se reporta às relações entre um homem e dois cães. Entre um homem e a sua própria imagem – projetada nos dois cães e dimensionada em abstrações e culpa.
De um lado, o cão primeiro, o cão José, somente adquire estatuto de existência no tempo pretérito, porque circunscrito aos ditames da memória, do reconstruir histórico; momento em que a escritura recupera fragmentos imersos no passado – o esquecimento está relacionado com a distância temporal: o presente reconstrói de um modo novo o seu próprio passado (KOTHE, 1976, 99). Essa consciência fundamenta o luto. A agonia do Professor de Matemática está expressa na ligação afetiva que, independente da distância física e temporal, mantém com o cão José e que está expressa na perda do amor.
Por outro lado, o cão desconhecido já não é mais um cão, no sentido estrito do termo – na condição de cadáver torna-se mais importante do que quando fora vivo. Sua morte, em lugar do petrificar da matéria e da memória, estabelece visibilidade para um simulacro (no sentido proposto por Baudrillard): o corpo do cão morto interrompe a transmutação da vida em morte (fenômeno físico-químico originário da decomposição orgânica do corpo) e instituí a morte como uma conexão fraturada com a vida. O cão desconhecido só poderá ser considerado extinto no instante em que cessar a sua ligação com o Professor de Matemática. E isso não será  possível enquanto o Professor de Matemática não conseguir suturar/saturar o interstício que existe entre a falta e o logos.
A ligação do cadáver do cão desconhecido com o mundo das representações cotidianas se concretiza através da uma nova convenção (esse hábito desonesto de relacionar a experiência adquirida no passado com os objetos que mudam de nome, de classificação, mas que conservam a substância original).
 O cão desconhecido é uma representação do cão José. E o seu enterro, embora não seja o enterro do cão José, simula o momento em que ocorreu a “morte” simbólica do cão José. É a sobreposição dos dois corpos que potencializa essa imagem – uma forma de repetição incessante do pesadelo.
Enterrar o cão desconhecido é uma manifestação religiosa: prova material do arrependimento e uma espécie desajeitada e canhestra de relicário, que objetiva reconstruir simbolicamente a imagem primitiva do cão José.


As moedas de troca

Torna-se impossível reatar as conexões afetivas quando abandonamos  quem confia em nós. Ao Professor de Matemática falta o entendimento do significado inserido na amizade (amicitia) que o cão José lhe devotou. 5 Por isso, circunscrito ao sistema de escambo capitalista, quer fornecer para o cão morto o amor que não foi capaz de entregar ao cão que abandonou: “quis que ele [o cão morto], para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia” (LISPECTOR, 1993, 149).
Tamanho esforço é inútil, porque não está relacionado com o exercício da paixão afetiva, mas ao equívoco que envolve a troca do objeto amoroso pela sua representação. 6


O coveiro e o cadáver

O cadáver do cão desconhecido é o elemento deflagrador das lembranças do Professor de Matemática – que ambiciona não mais visualizar no cão morto “a morte” do cão José.
Esse estratagema não funciona – ver a morte do cão José, através do cadáver do cão desconhecido, é um erro de análise. Mais do que um erro, é um pecado – e alguns pecados não merecem perdão.
O Professor de Matemática percebe que praticou um crime. Simultaneamente, descobre que não há um Deus capaz de perdoar esse tipo de falta: “ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições” (LISPECTOR, 1993, 154).
Dupla falta: o abandono e o crime. Mas as palavras e os pensamentos não bastam para descrever o impacto provocado pelas lacunas, pelas pausas, pelo não-dito, pelas imprecisões da linguagem. As palavras e os pensamentos se perdem no espaço, nos interregnos do inominável  – assim como o som do sino da igreja, o barulho da pá cavando o terreno ou o ruído do suor que escorre pelo corpo e amálgama a pele ao tecido das roupas.
As palavras, elementos de um discurso que trafega da corrosão à subversão, são inúteis – não conseguem esgotar/abranger a narrativa com os fragmentos que compõem os acontecimentos, a totalidade.
O discurso de desespero do Professor de Matemática se realiza como um deslizar metonímico, construído como ruptura e abismo, como articulação do sofrimento.


A revelação

Diante de tamanha azáfama, uma nova topografia se estabelece. O buraco (cova, sepulcro) vai se alastrando pelo chão, como um câncer.  A terra amontoa-se ao lado. A pá abre o chão e ajuda a compor a cenografia do desespero: o homem, o cão morto, a culpa e o monte de terra. Cavar eqüivale a um ritual de passagem, instante em que se separam o antes e o depois em “camadas afetivas culturalmente soterradas da sensibilidade humana” (NUNES, 1989, 269). Enterrar é fabricar “uma aparência do terreno” (LISPECTOR, 1993, 150).
Walter Benjamin lembra a parábola do homem que, próximo da morte, revela aos seus herdeiros a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos, tomando as palavras pelo sentido mais imediato, reviram as terras e nada encontram. No outono, as vinhas produzem mais do qualquer outra da região. Somente então compreenderam que o pai havia lhes transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho (BENJAMIN, 1985, 114).
Para o Professor de Matemática é difícil identificar as sutilezas que envolvem e constituem o conceito benjaminiano de Erlebnis, a experiência vivida. 7 
Assim como um anti-herói trágico, o Professor de Matemática constrói uma existência que se alimenta de enganos. Enterrar o cão desconhecido não descobre nenhum tesouro – é apenas cavar um equívoco, revolver a terra, corroborar com a inutilidade. O afeto pelo cão José e a sua representação foram substituídos pela fraude. O cão José, assim como o tesouro da experiência, não pode ser trocado pelo corpo de um outro cão. Por qualquer outro cão. Mesmo que esse cão tenha sido encontrado morto, em uma esquina.


A arqueologia do saber

Está configurada uma estratégia arqueológica: cães enterram e desenterram ossos. Analogamente, o Professor de Matemática enterra e desenterra o passado, através do cão desconhecido. Esse ritual zoofágico (tangencial à irracionalidade) mostra uma das maneiras com que o inconsciente se alimenta dos fósseis da memória e transforma o obscuro em iluminação: esse é o tesouro que está escondido nas entrelinhas do conto de Clarice Lispector e que o Professor de Matemática, se fosse menos racional, menos atento ao linear, poderia encontrar.      
Mas, para que ocorra essa inversão, necessário se faz um processo de cura mental: perceber que o funeral do cão desconhecido, embora projete um desejo, não configura o gozo.
Para poder aceitar essa revelação com a serenidade das descobertas mais singelas, apenas o olhar (mesmo que auxiliado por uma prótese óptica, os óculos) é insuficiente. A solidão dos que atingem um estágio superior de entendimento eqüivale ao descer aos infernos e sofrer com uma forma particular de loucura: a verdade.   
Desenterrar o cão desconhecido – que não mais está metamorfoseado de cão José – significa libertar as aflições e o Professor de Matemática não está preparado para dar esse passo na direção do abismo da lucidez.


A simbologia do capital

Há uma outra camada simbólica interposta/sobreposta pelo texto e a sua leitura: não há casualidade nas múltiplas referências à visão estreita, localizada, sem horizontes, deficitária do Professor de Matemática (LISPECTOR, 1993, 147-148).
Miopia é a palavra-chave. Chave do mistério. Mistério que não é mistério, apenas inexatidão, momento em que o olhar, esvaziado de sua significação, não consegue capturar o que está expresso na amplitude contextual (quanto mais perto da verdade, maior a dificuldade para o entendimento). 
O Crime do Professor de Matemática não tem um propósito explícito de determinar a extensão e a intenção do olhar insuficiente do Professor de Matemática.
 Concretamente, ao Professor de Matemática, faltam elementos para que possa entender o espaço exterior, a amplidão, o longe; falta-lhe aptidão para ver, sentir e compreender além dos fatos mais simplórios; falta-lhe uma vigorosa reflexão sobre o mundo em ruínas, sobre a época catastrófica que ele habita.
Sem os óculos, a visão periférica do Professor de Matemática fica restrita às cercanias do desassossego – insuficiente para abrigar a extensão do sensível (local onde o agônico é paralelo com a gnose do viver). É por isso que o narrador insiste em destacar as múltiplas vezes em que, através de um movimento pendular, o Professor de Matemática tira e coloca os óculos e/ou guarda-os no bolso.
O Professor de Matemática é consumido pela sensação de que, sem os óculos, os seus olhos e o seu corpo adquirem jovialidade. Em oposição, com os óculos, há um avançar temporal devastador, o rosto adquire a maturação característica da meia-idade. O Professor de Matemática quer ser jovem, mas experiente; não quer ser experiente e velho.
Os óculos se revelam como um espelho do tempo, a idade da razão, a metáfora indesejada: é constrangedor. O Professor de Matemática não é mais o homem que, em um passado ileso, podia ver o perto e o longe sem uma moldura no rosto. Por isso, mas não apenas por isso, ele se sente incomodado por necessitar da prótese óptica; necessitar de um instrumento que o faça ver mais preciso – ou melhor, que o faça ver – e que, ao ver, permita o alcance de um novo estrato do compreensão.
Por alguma razão obscura (talvez nervosismo, talvez um tique nervoso, talvez para limpar o suor do rosto), tirar os óculos do rosto, manuseá-los, guardá-los no bolso se revela um incomodo, uma situação lamentável – mesmo sabendo que a passagem do racional para o irracional, e vice-versa, não depende de próteses ópticas ou de atos mecânicos. O que faz a diferença é uma determinada maneira de olhar. Quando muito, tirar e colocar os óculos é um instante de pausa, um momento para respirar mais fundo, um pretexto para a reflexão e o encaminhamento ao que será enfocado e enquadrado pelo globo ocular.
Na modernidade capitalista, o olhar que vê pouco ou que nada vê (porque imune ao entendimento) é o que se consagra como ideal – porque indefeso aos mecanismos de sedução que o rodeiam. Para que isso se concretize, o olhar, seja míope ou astigmático, esteja com a retina danificada ou com o cristalino envolto por alguma película opaca (catarata), precisa de alguma forma de proteção. Proteção, neste caso, significa “enterrar” algumas imagens ou fatos (presentes ou passados), opor-se ao descortinar do horizonte visual.
Modernamente, essa proteção surge na forma de mercadoria. 8 Ou seja, como um dos elementos fundacionais do capitalismo. No conto de Clarice Lispector, os óculos identificam essa função: instrumentos de castração visual. O olhar, restrito ao foco das lentes, não mais se preocupa em capturar o que se deslocou (ou que está à margem) do campo de visão. O olhar é transferido para o fetiche, alterando a rota do desejo e encaminhando-o para “o que deve ser visto”. A perda da noção de totalidade – e de necessidade – estabelece vínculos com a ética discursiva do consumo (uma forma de perversão da economia das relações afetivas).


Penúltimas palavras

Na cena final da narrativa, o Professor de Matemática, depois que encontrou “friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido” (LISPECTOR, 1993, 155), desce a colina. Vai encontrar-se com a família.
Como um aluno que luta para apre(e)nder a lição, o Professor de Matemática “começou a descer as escarpas em direção ao seio da família” (LISPECTOR, 1993, 155),  movido pela esperança de um novo tempo – instante em que a redenção intelectual poderá socorrer aqueles que, através do erro, se revelam humanos.
Por isso, é possível supor que, em tempo impreciso, o Professor de Matemática voltará à colina, para contemplar, mais uma vez, a imagem do cadáver do cão desconhecido – ninguém consegue fugir do vazio que se abisma no espelho de seus medos.


Últimas palavras

Tráfego de olhares. De um lado, o cão José – e a sua representação ficcional, o cão desconhecido; de outro, o Professor de Matemática. Velocidades desiguais, rotas em colisão, campo minado das interdições emocionais, encruzilhada: dar sentido ao que parece não possuir sentido. 
 Olhares desencontrados, focados em distâncias e enganos. Olhares insuficientes. A palavra “falta” se mostra completa – uma falta que se completa em sua falta, porque inscrita na (in)tensão discursiva imposta pelo tecido narrativo (e as suas simulações). Conjunto de falsificações, enganos e artifícios – que se completam no jogo sedutor que está impresso no olhar: impresso para o olhar, impresso como olhar, impresso como uma forma de vedar o entendimento.   
O Professor de Matemática rompe o seu período de hibernação emocional quando (des)enterra o cão desconhecido – sem saber que esse ato significa um encontro mi(s)tico com a ressurreição (regresso ao entendimento dos fatos, “salto qualitativo” que exorciza a ordem castradora da norma social). 
O Professor de Matemática só consegue adquirir discernimento da pobreza ética, moral e emocional em que a sua vida está reduzida quando descobre que a lucidez também é um método lógico (apesar de irrealizável – desejar não é suficiente para alcançar e garantir o gozo, porque o gozo sempre está restrito pelas barreiras da consciência). 
Enquanto o cão José se expressa como uma tese (enterrar o passado) que migra para a antítese, o cão desconhecido é a antítese (desenterrar o passado) que elabora uma nova tese. Essa lógica não é garantia de felicidade. Muito pelo contrário. Novos problemas, novos impasses, novas interdições. 
De qualquer forma, o olhar insuficiente permite uma forma canhestra de percepção aos impasses da representação. O sujeito (aquele que observa) e o seu percurso existencial (o que é observado) encontram-se na borda do conhecimento: é esse olhar que impedirá que o Professor de Matemática aceite a insanidade proposta pelos “instrumentos de correção visual”; é esse olhar (mesmo que incapaz de abrangência) que constituí a promessa (mesmo que inconsciente) de que, em algum instante, irá se transformar no olhar integrador, que consegue captar toda a cena – sintonia entre o presente que recupera o passado e o passado que está oprimido pelo presente – e dela retirar a percepção da presença e da ausência de sentido histórico.
Olhar é a redenção e a condenação de quem ousa “olhar” além do olhar e redefinir o espaço em que estão inseridas as suas negações: os olhos são feitos para não verem a falta. Mas o olhar está lá, presente na mancha, assinalando o crime originário, o preço a pagar por ser sujeito do desejo. Essa mancha nunca se apaga, pois o homem nunca se purifica do gozo (QUINET, 2002, 290).


Referências Bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. Da sedução. Campinas: Papirus, 1991.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

COSTA, Jurandir Freire. Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. 5. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. 
KOTHE, Flávio René. Para ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. 24. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.
NOVAES, Adauto. “De olhos vendados”. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
NUNES, Benedito. “A paixão de Clarice Lispector”. In: NOVAES, Adauto (Org.). Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PARKES, Colin Murray. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus, 1998.
QUINET, Antonio. Um olhar a mais: ver e ser visto em psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
ROSOLATO, Guy. A força do desejo: o âmago em psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
ROUANET, Sergio Paulo. “O olhar iluminista”. In: NOVAES, Adauto. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
VALAS, Patrick. As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.





1 Sergio Paulo Rouanet, calcado na experiência intelectual da Ilustração e fazendo um contraponto com as ilusões estéticas da modernidade, propõe uma revisão conceitual baseada em uma “ética da visão e do olhar”, consoante com “a totalidade do real”: “é preciso ver tudo: é o reino da visibilidade universal. Aplicada às coisas, essa máxima significa que a totalidade do real se torna disponível para a visão ilustrada. A natureza é um livro a ser lido, sem censura e sem nenhuma necessidade de um nihil obstat por parte da autoridade, secular ou religiosa. O mundo é uma superfície plana que se oferece inteira ao olhar, em suas articulações empíricas e em suas leis inteligíveis” (ROUANET, 1988, 128).
2 Todo discurso é cúmplice do encantamento, afirma Jean Baudrillard, realçando que a sedução é aquilo que desloca o sentido do discurso e o desvia de sua verdade. Em outras palavras, os mecanismos de sedução que estão inseridos no discurso atuam como elementos da estética da dispersão, esvaziando e apagando o conteúdo original. Esse processo, que está amparado em interesses pouco claros, visa construir um discurso volátil, para melhor fascinar os outros (BAUDRILLARD, 1991, 61-62).
3 Todas as atividades humanas, no sentido freudiano, estão relacionadas com o desejo sexual. A interdição do gozo e instauração das carências afetivas surgem como conseqüência imediata do interdito, produzido pela norma social. Para uma melhor compreensão desse pensamento, ver, entre outros, ROSOLATO, 1999, e VALAS, 2001.
4 Ver PARKES, Colin Murray. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus, 1998. Especialmente as pp. 7-112.
5 Jurandir Freire Costa está entre aqueles que, nas questões afetivas, defendem um comportamento unificado: não existe ética sem afeto. E complementa o raciocínio, afirmando: a paixão não é inconciliável com o sentido de realidade; simplesmente acrescenta à realidade “valores e perspectivas pessoais” (COSTA, 1999, 198).
6 O simulacro, cópia da cópia (Baudrillard), elemento característico da era da reprodução técnica (Benjamin), transmuta e banaliza os sentimentos, os significados e a sintaxe dos objetos. O olhar de perplexidade do anjo da história, sendo carregado pela tempestade que é o progresso (BENJAMIN, 1985, 226), nos mostra que é necessário, em algum instante, lutar contra a alienação produzida pelo fetiche da mercadoria.
7 Para uma leitura da “erlebnis”, ver, entre outros, o prefácio escrito por Jeanne Marie Gagnebin para o primeiro volume das Obras Escolhidas de Walter Benjamin (In: BENJAMIN, 1985, p. 7-19).
8 Os objetos, na modernidade, perderam a sua característica de elementos do real. É através do  capitalismo que as relações que instrumentalizam o consumo inventam uma nova dimensão para as imagens. É o fetiche da mercadoria que institui a negação do real.


(Texto publicado no Anuário de Literatura n° 11, Curso de Pós-Graduação em Literatura, Universidade Federal de Santa Catarina, 2003. P. 95-106)

A EXCLUSÃO LÚDICA (mulheres, xadrez e literatura)


O meu maior problema, quando decidi participar deste evento, estava nas possibilidades relativas ao articular do meu texto. Pretensiosamente, conclui ser importante começar com alguma declaração bombástica, quem sabe um pequeno terremoto, grau 6, por exemplo. Considerando-se que a escala Richter tem o seu ápice no grau 8, então deveria causar um escândalo razoável. Enfim, algo que demarcasse o meu “fazer gênero”.
Infelizmente, ao abordar um tema tão exótico como a relação existente entre mulheres, o jogo de xadrez e a literatura, essa minha (as)piração intelectual foi para o brejo. Depois que reuni todo o material, conclui que é impossível que alguém consiga gerar alguma polêmica com esse tema. Pensando bem, nem mesmo Aristóteles conseguiria construir um arremedo de sistema filosófico em cima de tal tese. Pensando melhor, nem mesmo cócegas esse assunto deve despertar. O único escândalo que me ocorreu, naquele momento, foi o contar algumas daquelas estórias escabrosas sobre bispos que “comem” rainhas atrás da torre, enquanto a cavalo, o rei e o peão, sabe-se lá com que intenções, passeiam alegremente, de mãos dadas, pelo tabuleiro. Pura bobagem, como se pode ver. Aliás, como tudo o que parece importar na vida. Mas, esqueçamos essas fofocas. Não é meu propósito ficar demarcando território através de uma série de insignificâncias.
Entendo que o grande sentimento que o jogo de xadrez desperta nas pessoas consideradas “normais” é o tédio. E não poderia ser diferente, pois como é de conhecimento geral, enquanto jogam, teias de aranha se formam na cabeça dos enxadristas. É isso: o xadrez é um jogo chato, onde não acontece nada, os jogadores ficam ali, durante horas, esperando Godot e olhando para aqueles pedaços de madeira ou plástico, enquanto fazem pose de meninos inteligentes. Uma hora, quando ninguém espera, um dos dois jogadores, ladinamente, move um peão lá do outro lado do tabuleiro e isso obriga o seu adversário a mergulhar em pensamentos profundos e, claro, sem o mínimo sentido. É isso: o xadrez é o jogo da inércia. Não acontece nada. Para quem gosta, por exemplo, de jogar aqueles “games” de computador, onde morrem trezentos a cada segundo, convenhamos, não há cristão que agüente tamanho desperdício de tempo.  Simultaneamente, quem é que consegue suportar a inquietude, o desconforto do silêncio? Só se admite, neste jogo, o tic-tac dos relógios. E isso é chato, muito chato. Além disso, não podemos esquecer que, na modernidade, o silêncio é associado com a morte. É preciso agilidade, quando se quer ser moderno, quando se quer mostrar vida, e o xadrez não oferece isso.
Como se não bastasse, ainda há um protocolo mental e sociológico que relaciona a falta de agilidade física dos enxadristas com a hospedagem permanente em algum hospício. Quando alguém fala em xadrez está, por extensão, falando em pessoas excêntricas, cheias de tiques nervosos e capazes de fazer coisas que até Deus duvida – e tudo isso formatado em um estereótipo: homem, jovem, magro, feio, óculos fundo-de-garrafa, quilos de espinhas na cara e um quociente de inteligência acima de três dígitos. Ou seja, alguém que não podendo ter uma vida sexual mediana, se decide pelo onanismo incessante. Ou vai me dizer que essas frescuras de mover as peças, com a ponta dos dedos, um monte de delicadeza desproposital, como se o destino do mundo estivesse ao alcance da mão ou da mente, significam outra coisa além de masturbação? Por maiores que sejam os artifícios na construção das fantasias eróticas, quem é que quer enganar quem? 
Outra coisa: como se não bastassem as tolices que emolduram o jogo, um outro preconceito assola a vida dos enxadristas. O imaginário contemporâneo está convicto de que jogar xadrez transforma instantaneamente o jogador em uma pessoa muito, muito, muito, muito inteligente. Particularmente, tenho minhas dúvidas. E estou muito bem acompanhado nesta viagem. Em 1942, morando em Petrópolis, RJ, Stefan Zweig, ele mesmo um enxadrista amador, escreveu uma novela clássica sobre o tema: Schachnovelle, traduzida ao português com o singelo nome de “Xadrez”.1 O personagem principal, Mirko Czentovic, é descrito da seguinte forma: esse campeão de xadrez era incapaz de, em qualquer idioma, escrever uma frase sem erros ortográficos, e que, como dizia com raiva e desdém um dos seus colegas indignados, “sua falta de cultura em todos os domínios era igualmente universal”. Adotado por um pároco de aldeia, que tentou alfabetizá-lo, Mirko olhava para as letras como se fossem coisas desconhecidas. Quando precisava fazer uma simples adição, utilizava os dedos. No entanto, era ótimo para rachar lenha, trabalhar na lavoura, arrumar a cozinha e, surpresa!, jogar xadrez!
Na vida real, como dizem aquelas pessoas que conseguem separar os atores das personagens que são interpretadas nas novelas da televisão, muitos exemplos similares podem ser mencionados. É o caso de Robert James Fischer, um dos maiores jogadores de todos os tempos. Fischer praticamente não freqüentou a escola. Dizia que lá não havia o que aprender. Aparentemente ele tinha razão, tanto que triunfou na única coisa que fez na vida: jogar xadrez! O divertido disso tudo é que, lá pelos anos 60, Fischer fez questão de volta a estudar. Sim senhor, ele voltou para a escola. Mas, claro, era uma escola especial. Antes que alguém fique pensando que o cara enlouqueceu de vez e ingressou em uma desses manicômios da vida, esclareço o mistério: Fischer queria aprender a língua russa. Para que? Simples, para ler revistas de xadrez! As russas eram as melhores do mundo, na época!
Ainda falando sobre os “ignorantes”, podemos incluir pessoas como o brasileiro Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, cuja vida tem sido marcada pelo seu constante fracasso em se adaptar ao mundo que o cerca, e o norte-americano Samuel Rechevsky, que aos 9 anos de idade já realizava partidas simultâneas (modalidade em que um jogador joga contra vários adversários ao mesmo tempo). Nenhum dos dois fez outra coisa na vida além de jogar xadrez!
Em oposição, há aquelas exceções que confirmam a regra: o grande-mestre alemão Robert Hübner é doutor em arqueologia, com especialidade em egiptologia; o grande-mestre inglês John Nunn, além de professor da Universidade de Oxford, é doutor em matemática. Por último, uma doce surpresa: o ex-campeão mundial Mikhail Thal era mestre em literatura!! Sim senhor, com diploma na parede, alunos e tudo o mais que caracteriza esse interessante e instrutivo papel que desempenhamos no teatro da literatura. Claro, não preciso reiterar que todos esses jogadores possuíam Q.I. na faixa dos três dígitos.
Uma fauna! Animais em extinção. Algo assim como um mico-leão dourado! Tá me entendendo? E, melhor ainda, nem o Ibama os protege!
Feitas essas considerações preliminares, vamos em frente, e através da literatura. Pois bem, iniciemos com um exemplo canônico: Fernando Pessoa. Nas Odes de Ricardo Reis, encontro um longo poema, de onde retiro dois fragmentos:

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.
(...)
Quando o rei de marfim está em perigo
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.2

Morrem filhos, mulheres são estupradas, o mundo desaba e os dois jogadores do poema de Fernando Pessoa continuam a jogar, como se nada estivesse acontecendo, exceto o lento e aborrecido deslizar das peças sobre o tabuleiro. Essa imagem, apesar de estereotipada, encontra confirmação nos, digamos, lances de linguagem de um dos dois poemas que Jorge Luis Borges denominou Ajedrez:

Tenue rey, sesgo alfil, encarnizada
Reina, torre directa y peón ladino
Sobre lo negro y blanco del camiño
Buscam y libran su batalla armada.
No saben que la mano señalada
Del jugador gobierna su destino.
No saben que un rigor adamantino
Sujeta su albedrio y su jornada.

También el jugador es prisionero
(La sentencia es de Omar) de outro tablero
De negras noches y blancos dias.

Dios mueve el jugador y éste, la pieza.
Que dios detrás de Dios la trama empieza
De polvo y tiempo y sueño y agonia?3


Quer saber de uma coisa? O Barão de Itararé é que tinha razão quando dizia que “saber jogar xadrez só serve para uma única coisa ... jogar xadrez!”.4 Sábio homem!
Mas, e as mulheres? Pois é, onde é que estão as mulheres? E qual é o papel que desempenham nesse jogo? Vou contar uma pequena história. Ao lembrar de Vera Francevna Menchik, a primeira campeã mundial de xadrez, o grande-mestre russo Salo Flohr disse: “Vera Menchik foi a primeira mulher, no mundo inteiro, a jogar xadrez ... como um homem”.5 É isso. No imaginário popular, mulheres, quando jogam bem, jogam como se fossem homens. Mulheres são homens quando jogam xadrez. Parece piada, não é mesmo? Então escuta esta outra história. Na Hungria, jogar xadrez eqüivale, digamos, a jogar futebol no Brasil. Entre os heróis nacionais daquele país destacam-se as três irmãs Polgar, que são tão famosas quanto, digamos, Pelé. A mais talentosa dessas jogadores é a caçula, Judith Polgar. Muito marmanjo já inclinou o seu rei diante dela, inclusive vários ex-campeões mundiais. Pois bem, Judith costuma repetir para quem quiser ouvir que nunca vai ganhar o campeonato mundial feminino. Sabem por que? É simples: Judith quer ser “o” melhor jogador do mundo e por isso, quando pode, só joga torneios masculinos.  Judith joga como um homem. Grande garota!
Continuando no caminho dos preconceitos, encaminho o olhar, outra vez, para a literatura. Em Um baile no matadouro, Lawrence Block,6 um dos grandes escritores de romances policiais, conta, lá pela página 170 da edição publicada no Brasil, a surpresa do detetive Matthew Scudder ao saber a localização de uma testemunha. É que o rapaz costuma freqüentar uma boate chamada “Eighth Square”, a Oitava Casa. Ao ouvir o nome do lugar, Scudder faz um ar intrigado. A solução do mistério tem o gosto de xeque-mate: no jogo de xadrez, a oitava casa é o local onde o peão se transforma em rainha. Vejam só o grau de sutileza do texto: o rapaz que Scudder estava procurando era homossexual.
A essas alturas do campeonato, creio que todos os corajosos que ainda continuam presentes nesta minha caótica exposição, e que ainda não estão dormindo, devem concordar que por trás (epa!) de um joguinho inocente como o xadrez se escondem muitas sujeiras. Por enquanto, encontramos a alienação, a deficiência mental, a misoginia e a homofobia. É pouco? É pouco! E sabem por que? Porque tem mais, muito mais. Tenham paciência que eu já conto mais umas coisinhas sobre o assunto.
Por enquanto, vamos voltar, outra vez, para a literatura. Entre os escritores que tiveram intimidade com o xadrez, Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, é uma referência especial. Em vários de seus livros, o jogo está presente. Exemplos? Em um de seus romances mais conhecidos A verdadeira vida de Sebastian Knight,7 esse “knight” aí é o grande suspeito. Assim como o mordomo é sempre o assassino nos romances de mistério, a palavra inglesa “knight”, cavaleiro, se refere a uma das peças do jogo de xadrez: o cavalo. Mas, é importante destacar a sutileza semântica: a palavra utilizada pelos ingleses é knight, que remete a um estrutura histórica, e não horse, que carrega em si a noção de classe social “inferior”. Claro, xadrez é um jogo elitista, das classes econômicas e culturais superiores. Por isso mesmo é que seus personagens principais são o rei, a rainha, o bispo, o cavalo e a torre (símbolos de uma estrutura de poder muito particular). Os peões, que são a maioria, não passam de, para usar uma terminologia, digamos, mais engajada, massa de manobra. Do ponto de vista político, peões, assim como o povo, são as primeiras vítimas, são os que devem ser sacrificadas. E, claro, ninguém chora por ti, Argentina!  
Em um outro romance, A defesa,8 Nabokov conta a estória de Luzhin, um jogador que acredita ter criado um sistema estratégico que o impede de perder.9 Infelizmente, se o sistema é perfeito, o jogador não o é. Como no poema de Borges, que citei anteriormente, Deus move o jogador e o jogador move as peças. Resta saber: existe um outro deus por trás de Deus e que seja capaz de corrigir os desatinos divinos?
Neste ponto quero pedir desculpas, pois estou entrando em terreno minado, xadrez não rima com metafísica. Voltemos, portanto, às coisas terrenas. Entre os romances que adotam o xadrez como tema, há várias traduções publicadas no Brasil. Fernando Arrabal, o grande teatrólogo espanhol, escreveu uma fantasia psicológica, A torre ferida por um raio.9 Neste texto, que prima pela estranheza narrativa, a ficção política é elevada ao nível do desvario.
Outro texto ficcional sobre o assunto é o romance A variante Lüneburg, escrito pelo italiano Paolo Maurensig.10 Trata-se de um bom exemplo de utilização do tema no romance policial. História surpreendente, com desfecho também muito interessante.
Para não dizer que não falei de flores, preciso mencionar o início do romance mexicano Amphitryon, de Ignacio Padilla,11 em que dois jovens, durante a Iª Guerra Mundial, estão jogando xadrez em um vagão de trem. O prêmio do vencedor é assumir a identidade do perdedor. O vencedor se transforma em um pacato funcionário ferroviário; o perdedor é condenado à morte, na frente de batalha.
No que tange à literatura brasileira, temos pelo menos quatro exemplos notáveis. O primeiro está relacionado com o maior de todos os romancistas brasileiros: Machado de Assis. O cara era, como direi?, um aficionado. Jogava razoavelmente e chegou até a compor alguns problemas (situação de jogo, semelhante a um quebra-cabeças, em que o solucionista deve encontrar a vitória em um número de lances predeterminados). O segundo exemplo é o romance Variante Gotemburgo, escrito por Esdras do Nascimento.12 É um livro ruim, seja do ponto de vista literário, seja enxadristico, mas é um daqueles casos que ficarão na história da literatura. Foi o primeiro romance a ser aceito como tese de doutorado no Brasil. O terceiro exemplo é um conto quase esquecido de Guimarães Rosa, chamado “Xadrez”. Para bem da literatura, deveríamos esquecê-lo de vez. Por último, em diversos momentos, principalmente quando aparece o personagem detetive Mandrake, Rubem Fonseca introduz o xadrez em seus contos e romances. Nesses casos, o jogo tem um aspecto, como direi, sem ser muito cruel?, de elemento decorativo, mas não é possível negar que o xadrez está lá e que Mandrake, na falta do que fazer, maneja as peças na nem sempre alegre companhia de Berta, sua amiga/secretária/sei-eu-lá-o-que, como podemos ver no conto que leva o nome do detetive (incluído em “O Cobrador”).13
Antes que alguém pense em fazer uma pausa para o cafezinho, quero destacar aqui um fato: como podem ver/ouvir, a bibliografia sobre o tema não é tão escassa quanto parecia em um primeiro momento. E isso porque ainda não citei dois casos teóricos muito particulares: George Steiner e Martin Amis. Quer dizer, não havia citado. Vamos ao crime. Amis, um inglês que adora xadrez e tênis, é amigo de jogadores profissionais como o grande-mestre inglês Nigel Short e o ex-campeão mundial Garry Kasparov. Em um artigo que publicou no jornal “The Independent” e reproduzido no Brasil pela “Folha de São Paulo”,14 declara com todas as letras que não existe um jogo mais sangrento e cruel que o xadrez. Como exemplo compara a luta que se trava no tabuleiro com o kickboxing e lembra uma frase de Garry Kasparov: O público precisa compreender que o xadrez é um esporte violento, é tortura mental.
Nesse sentido, sintomaticamente, o grande-mestre romeno Florin Gheorgiu costumava, antes de iniciar suas partidas, repetir um mantra muito particular. Olhando para o adversário, repetia várias vezes, em tom incontestavelmente amoroso: Eu vou destruir você, eu vou destruir você!. Seria isso, uma comprovação de uma tese famosa, proposta pelo psicanalista Ruben Fine? Fine, que foi um dos maiores jogadores da década de 40, sustentava a idéia de que o xadrez é uma representação do complexo de Édipo e que toda partida é uma repetição do velho axioma freudiano: matar o pai e dormir com a mãe. Dar xeque-mate e “comer” a rainha! Uau!
George Steiner, um excelente teórico da literatura, escreveu um ensaio clássico sobre o xadrez. Chama-se Uma morte de reis (incluído, no Brasil, no volume Extraterritorial15). Nesse texto, escrito em tom romântico, lembra que apenas três manifestações da genialidade humana ocorrem na infância: a música, a matemática e o xadrez. E cita diversos exemplos ilustrativos, alguns dos quais mencionei nesta comunicação.
Haveriam outros textos, outros títulos, para serem citados. Como é preciso manter o foco, volto o olhar, outra vez, para as mulheres. Ou melhor, volto o olhar para a ausência das mulheres, seja no jogo, seja na literatura que utiliza o xadrez como tema. Imagem alegórica da guerra, o xadrez está alicerçado em um protocolo masculino, onde pouco ou nenhum espaço há para as mulheres. Embora a popularização de um esporte dependa da massificação, e no xadrez o número de mulheres que jogam em nível de excelência seja muito pequeno, o que podemos visualizar, tanto no que se refere à construção intelectual que alimenta o imaginário do jogo, como na literatura que o representa, é que as mulheres não estão incluídas como protagonistas. Talvez a única exceção seja no romance Alice através do espelho, de Lewis Carrol,16 mas o texto é tão maluco, tão cheio de nonsense e de delírios que, francamente, não pode servir como referência. 
Ainda sobre a questão da ausência das mulheres, nunca é demais lembrar uma frase de Bobby Fischer: “Precisando escolher entre as mulheres e o xadrez, prefiro o xadrez”. Hummmm....  Mas, sem querer defender Fischer, como é possível entender os casos da ex-campeã mundial Maya Chiburdanidze e da mestra argentina Claudia Amura que, quando abandonaram o jogo, entraram para um convento!?!? 
Continuando essa minha bagunça, gostaria de lembrar que o verbo mais importante no xadrez é “comer”. “Comer, comer, esse é o meu maior prazer”. E como todos sabemos, para que alguém coma, alguém precisa ser comido. Peças entram e saem do tabuleiro, algumas são sacrificadas, outras são tomadas a força – e, em muitos desses casos, o gozo é impossível de ser escondido. Certo, as peças não usufruem do prazer advindo do gozo, mas o jogador ... esse sim, sabe o quanto é delicioso “comer”. O problema é que esse “comer” só se realiza no plano simbólico, ou seja, não se efetiva como ato concreto, físico. A única coisa que podemos perceber como gesto intencional desse “comer” é o mover manual das peças sobre o tabuleiro. Como já afirmei anteriormente, há um visível movimento masturbatório nessa representação da violência sexual. Por isso mesmo, como uma repetição incessante da verborragia masculina, o esgrimir falocrata não passa de um exibicionismo miserável e broxante. Legítimo blablablá. E isso significa que no reino dos fetiches sexuais sempre haverá lugar para pervertidos que se satisfazem com, digamos, para não ser muito cruel, sexo oral!   
De qualquer forma, é preciso lembrar que existem 32 peças no tabuleiro quando o jogo inicia. E que apenas duas são mulheres. Cada um dos jogadores dispõe de uma rainha – e, se me perdoarem a expressão politicamente incorreta, principalmente em um evento que trata das questões de gênero!, muitas vezes uma “come” a outra!
E já que a conversa está enveredando para esse tipo de assunto que privilegia o baixo ventre, desculpe, o baixo nível, gostaria de, outra vez,  pegar (epa!) esse gancho, ou seja, a discussão sexual. Durante uma partida, entre as várias possibilidades de alguém “comer” alguém, o jogador poderá – em situação “normal” – comer oito peões, duas torres, dois cavalos e dois bispos. E, por fim, se não estiver empanturrado, talvez sobre espaço para “comer” a rainha. Tudo depende de como se desenvolver a partida. Tudo depende de suas preferências. Sexuais, inclusive. O único que “tira o seu da reta” é o rei, pois na hora H, quando está prontinho para ser comido, o jogo acaba. Cara de sorte! Ou será de azar?  Deixo essas questões em suspenso, pois já fui longe demais!

Para finalizar, peço licença para citar um outro poema. Apesar de parecer, é isso mesmo, parecer não estar relacionado com o tema que escolhi, aponta para um desses momentos-chaves de qualquer discussão, de qualquer tese. 
Bertold Brecht escreveu dois poemas (pelo menos eu só conheço dois) sobre a morte de Walter Benjamin. Significativamente, um deles menciona as intermináveis partidas de xadrez que os dois jogaram em uma das três temporadas que passaram juntos em Skovbostrand per Svendborg, na Dinamarca, onde Brecht estava exilado.
O poema se chama: “A Walter Benjamin, que se suicidou quando estava fugindo de Hitler”, e diz o seguinte, nos seus quatro versos:

Extenuação era a tática que te aprazia
Sentado à mesa de xadrez na sombra da pereira.
O inimigo que te desalojou dos livros
Por gente como nós não se deixa extenuar.17





1 ZWEIG, Stefan. Amor e xadrez (e fragmentos do diário – agosto de 1936). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
2 PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio 2-3 (Odes de Ricardo Reis). 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 104-106.
3 BORGES, Jorge Luis. Obras completas (1952-1972). T. II. Barcelona: Emecé Editores, 1989. p. 191.
4 SOUSA, Afonso Félix (Org.). Máximas e mínimas do Barão de Itararé. Rio de Janeiro: Record, 1985. p. 135.
5 HORTON, Byrne J. Moderno dicionário de xadrez. 3. ed. São Paulo: Ibrasa, 1973. p. 174.
6 BLOCK, Lawrence. Um baile no matadouro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
7 NABOKOV, Vladimir. A verdadeira vida de Sebastian Knight. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
8 NABOKOV, Vladimir. A defesa. Porto Alegre: L&PM, 1986.
9 Há uma interessante adaptação cinematográfica do romance de Nabokov: The Luzhin defence (Inglaterra/França, 2000. Dir.: Marleen Gorris) e que recebeu, no Brasil, o título de O último lance.  
9 ARRABAL, Fernando. A torre ferida por um raio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
10 MAURENSIG, Paolo. A variante Lüneburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
11 PADILLA, Ignacio. Amphitryon. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.  
12 NASCIMENTO, Esdras do. Variante Gotemburgo. Rio de Janeiro: Nórdica, 1977.
13 FONSECA, Rubem. Mandrake. In: ______. O cobrador. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
14 AMIS, Martin. Os enxadristas não são mais desleixados. Folha de São Paulo. São Paulo, 21. Nov. 1993. Caderno de Esportes. p. 10.
15 STEINER, George. Uma morte de reis. In: ______. Extraterritorial: a literatura e a revolução da linguagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 55-64.
16 CARROL, Lewis. Alice: edição comentada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
17 BRECHT, Bertold. A Walter Benjamin, que se suicidou quando estava fugindo de Hitler. Apud GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin: os cacos da História. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Coleção Encanto Radical). p. 78.


(Texto apresentado no V Encontro Internacional FAZENDO GÊNERO, Florianópolis, 2002).