segunda-feira, 29 de agosto de 2011

DOM CASMURRO E A MODERNIDADE - O DISCURSO DO CORNO



Todas as histórias de amor terminam mal. Essa é a principal lição que o Realismo ensinou aos românticos. O idílio amoroso de nove entre dez estrelas de cinema, digo, de nove entre dez casais de namorados, aquele que termina com a frase mais ridícula que a literatura costuma usar nessas ocasiões, "e eles foram felizes para sempre", é clássico auto−engano, sonho de que a felicidade está ao alcance de qualquer um. No imaginário social, a felicidade é presente divino, basta abrir os olhos e colher flores no jardim da vida. Assim, na boa, sem custos, sem encargos, sem a luta diária que compõe as negociações de um relacionamento afetivo. Em lugar disso, em lugar desse desgaste, quem está apaixonado costuma despejar milhares de "eu te amo" sobre os ouvidos das vítimas, também conhecidas como trouxas−de−plantão. Muitas vezes essas promessas de bem−querer são pronunciadas em voz alta, esquecendo que, se o amor é cego, os vizinhos não são surdos. Em outras palavras, é com profundo pesar que a literatura comunica a quem de direito, e algum interesse possa ter, que a vida a dois é o formidável enterro da última quimera, como dizia o poeta. E esse é um ponto pacífico na questão. Perdão, houve um equívoco. Pacífico é o oceano, a vida amorosa é guerra − em cima ou embaixo dos lençóis, antes ou depois dos gemidos de dor e prazer. Basta lembrar que algumas das mais famosas histórias amorosas, Romeu e Julieta ou Páris e Helena (os causadores da guerra de Tróia), por exemplo, não tiveram happy end. Isto é, tiveram a punição clássica para quem vive caminhando nas nuvens, esquecendo que as estradas são esburacadas. Na "vida real", basta o menor descuido e... Catabum! Além da perna quebrada, imenso hematoma no ego. E, no caso específico do hematoma, a história não melhora com pinceladas de mertiolate, assopros carinhosos e alguma observação trivial, "Quando casar sara", porque não vai haver casamento, e se houver, se houver não há de cumprir com objetivo a que se propõe, basta lembrar que no meio de qualquer briga sempre existe o risco de iniciar algum campeonato de arremesso de louça na cabeça do Outro, e isso posto não mais será possível viver contemplando o remendo, a visão da fratura é agônica, insuportavelmente dolorida. 
   


Joaquim Maria Machado de Assis (1839 − 1908) também tinha esse entendimento. Influenciado em boa medida pelo realismo nu e cru de Gustave Flaubert e Eça de Queirós (que ele, Machado, dizia não gostar), também quis ele, Machado, contar uma história das pancadas que sofre um coração amoroso. Como sugere Walter Benjamim, contar histórias sempre foi a arte de contá−las de novo. Naquela época, deitar com mulher casada, mais do que freqüentar prostitutas, era uma tara, perdão, mais uma vez escrevi a palavra errada, quis dizer tema, isso mesmo, um tema bastante freqüente na literatura daquela época, exemplos não faltam, O Primo Basílio e Os Maias, do Eça de Queirós, Madame Bovary, do Gustave Flaubert. Seguindo esse fluxo, a Machado também coube meter alguns ornamentos na cabeça do protagonista de sua narrativa, embora de maneira particular, puxando a brasa para sua sardinha, mostrando que o ciúme é a mola−mestra do equívoco, do transformar a paixão amorosa em pose e posse, objeto e obsessão. Silenciosamente, como se tivesse patas de gato, o ciúme é prova de competência na arte de estragar essa refeição que chamam de casamento, esquecendo que qualquer alimento só se torna palatável se for condimentado com sal, ervas finas e azeite de boa qualidade.  No entanto, antes que o leitor se engasgue com iguarias que não foram feitas para o seu paladar, posto que piloto de má sorte, não se navegam corações como os outros mares deste mundo, urge estabelecer algumas definições conceituais. Tomo como guia o Zuenir Ventura, que ensina o básico: Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúmes é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha.    


Dom Casmurro, romance manjado, publicado em 1899, desses que parecem ter como finalidade somente o atormentar estudantes do segundo grau e vestibulandos, é um ensaio anatômico sobre o ciúme. Machado de Assis não teve medo de enfiar na mão o bisturi e com ele abrir incisões no corpo do amor. A história narrada em primeira pessoa por Bento Santiago abrange quarenta anos. Inicia quando o narrador−personagem tinha quinze e o termina aos cinqüenta e cinco. O homem que recebeu dos desafetos a alcunha de Dom Casmurro é um ressentido, mas possui algum humor. A palavra casmurro caracteriza interessante auto−ironia, pois se de um lado significa alguém de maus bofes, sem humor, intratável, também pode ser entendida como calado, de pouca conversa, teimoso e obstinado. O título Dom estabelece um elemento de importância, um patamar superior, a diferença aflorando entre aqueles que deveriam ser iguais. Pois é, Dom Casmurro. Ou, de acordo com o desenrolar desta história, Bentinho, intimidades com o narrador, pois que ele mesmo não esconde esse diminutivo no trato geral do texto. Pois então que fique bem claro o básico: a história se desenvolve em torno dos desencontros entre namoradinhos e que, ao vago deslocar da areia na ampulheta, resulta em Bentinho pra cá, Escobar pra lá, Capitu no meio, o velho e tempestuoso triângulo amoroso.


Mas, antes que a confusão se estabeleça, cabe estabelecer ordem no enredo. Por trapaças da sorte, depois de se descobrir apaixonado por Capitolina Pádua, a Capitu, Bentinho não pode saborear mais do que alguns poucos roçar de lábios, visto que acabou condenado a ferros em seminário, paga de promessa feita por sua mãe quando nasceu. Lá conheceu Ezequiel de Sousa Escobar, um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo, que, embora fosse cerca de três anos mais velho que Bento, acabou por tornar−se o seu companheiro de todas as horas. Os bons e maus momentos foram compartilhados em perfeita comunhão. Apesar das poucas informações fornecidas pelo personagem−narrador (No seminário... Ah! Não vou contar o seminário, nem me bastaria a isso um capítulo. Não, senhor meu amigo; algum dia, sim, é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto), há que se supor que não foram desabonadores os episódios que os uniram no seminário. Tanto que emergiram do purgatório, digo, respiraram o ar da liberdade ungidos com os santos óleos da teologia, conforme o pedantismo acaciano de José Dias. Enquanto ambos os dous, Bento e Escobar, estavam cumprindo pena no seminário, Capitu, pretextando cuidar de D. Glória, a mãe de Bentinho, que estava acamada, foi se acercando da enferma, criando intimidades, se fazendo necessária. E, obviamente, criando laços afetivos.   


Mais tempo passou, inclusive cerca de dois terços do romance, algumas histórias relatadas nessas cenas parecem ser do gênero "encher lingüiça", como se pode ver pelos casos do Panegírico de Santa Mônica, soneto e o enterro do Manduca. É uma lengalenga que parece não ter fim, recheada de divagações, citações bíblicas, causos mitológicos, anedotas sociais. Aos 16 anos, Bento e Escobar deixaram as portas do seminário para trás. Bento foi cursar leis, e aos 22 anos era Bacharel em Direito; Escobar, nessa época contando 25 anos, estava a negociar café e havia casado com Sacha, amiga de infância e de escola de Capitu.     


O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra−regras, isto é, designa a entrada das personagens em cena, dá−lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro, não se constrange de proclamar o narrador. E tudo isso se refere ao elementar. Enquanto algumas personagens desaparecem de cena, Bentinho e Capitu contraem núpcias. Nos dramas românticos, aqui caberia a frase "e foram felizes para sempre", frase que anestesia todas as miudezas que compõem um matrimônio, frase que sufoca o olhar assassino causado por tolha molhada deixada em cima da cama, pelo não levantar a tábua do vaso sanitário na hora do expelir um dos fluídos corporais. Obviamente, a narrativa não se detém nessas miudezas. O que afligia o dileto casal era a falta de herdeiro. Dois anos de união e nada. Há que se imaginar que o casal tenha suado no esforço de remediar essa carência. O texto é muito pudico em contar esses detalhes de cama, mesa e banho, mas para bom entendedor meia palavra basta. Escobar e Sancha, por sua vez, tinham uma filha. Alem disso, Escobar, ao que parece, também era vezeiro em aventuras extra−conjugais – não deu escândalo, comenta o narrador.


Eis que nasce, finalmente, o filho.

A minha alegria quando ele nasceu, não sei dizê−la; nunca a tive igual, nem creio que a possa haver idêntica, ou que de longe ou de perto se pareça com ela. Foi uma vertigem e uma loucura. Não cantava na rua por natural vergonha, nem em casa para não afligir Capitu convalescente.

O retrato da felicidade. Recebeu o pimpolho o nome de Ezequiel, homenagem ao amigo dileto. E o menino cresceu rápido, brincando de soldado, fazendo arruaças, alegrando o coração dos pais.      


Escobar, o amigo, com o passar dos anos, progrediu. Comprou casa nova, mais próxima do lugar onde moravam Bento e Capitu. Os amigos se tornam pródigos em visitas e refeições. Como estava escrito nas estrelas, um dia tudo acaba. E o princípio do fim se deu quando Escobar foi ao mar. Voltou cadáver. Afogado. No momento em que a alma do falecido estava sendo encomendada, Bentinho consegue perceber o que até então lhe era invisível:

Sancha quis despedir−se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer−se a si mesma.  Consolava a outra, queria arrancá−la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela. Capitu enxugou−as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá−la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem as palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.

Aquele enterro enterrou a ingenuidade. Bento tomado por sentimentos confusos e de difícil diagnóstico, entrou em transe. É verdade que fez discurso à tumba daquele que por muitos anos lhe foi o irmão que a família não lhe deu, mas também é verdade que foi ato maquinal, sem grandes arrufos, como se, em lugar das letras escritas no papel, estivesse a rever os fatos idos e vividos, como se algo o estivesse a corroer internamente, a certeza de que não era o amigo que estava sendo baixado à tumba, mas o comborço.


E isso se tornou mais intenso, como se fosse algo que até então estava submerso e finalmente veio à tona, quando começou a reparar em Ezequiel. Parecia−lhe ver, principalmente nos olhos do filho, as feições do amigo morto. Como o menino já tivesse idade para tanto, meteram−no em colégio interno, só voltava para casa nos finais de semana.

Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista; mas a volta dele, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança, era a volta do Escobar mais vivo e ruidoso. Até a voz, dentro de pouco, já me parecia a mesma. Aos sábados, buscava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo; mas não escapava ao domingo, no gabinete, quando eu me achava entre jornais e autos. Ezequiel entrava turbulento, expansivo, cheio de riso e amor, porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar, tanto a ela como aos outros. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral, cuidava de me não fazer encontradiço com ele, ou só o menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto.

Mal secreto. Dentro das palavras, veneno. E que foi sendo administrado homeopaticamente em Ezequiel. A relação pai e filho estava de malas prontas para o rompimento definitivo. Aos olhos pecaminosos de Bento, o menino era prova irrefutável de que as relações amorosas eram uma fraude. Fraude que envolvia o pai, a mãe, o filho, o casamento, a amizade – todos os valores sociais estavam diante do tribunal e as provas fornecidas pela acusação eram robustas, contundentes, irrefutáveis. Pensou Bento em suicídio, tanto que comprou em uma farmácia determinada substância. Não a tomou. Em vez disso, foi ao teatro. Estavam representando Otelo. A cena do lenço corroeu suas entranhas. Passou a noite a vagar pelas ruas do Rio de Janeiro, a vida sendo exposta pelo ciúme, pela dor.


Na manhã, embriagado por maus sentimentos, renega o filho. Em voz alta, enquanto abraça Ezequiel, como se fora juiz em processo de paternidade, pronuncia a sentença: Não, não, eu não sou teu pai! Capitu, que estava próxima, ficou lívida. Seguem−se os pedidos de explicação adequados a esse momento dramático.  Não os há. O que há é a ruptura. Acabou o casamento.

Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: − Mamãe! Mamãe! É hora da missa! − restituiu−me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez−se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porem, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou o filho e saíram para a missa.

Eis a peça jurídica. Nada mais havia a tratar. O advogado havia vencido o marido. A pena foi cumprida de maneira educada: foram todos à Europa. Algum tempo depois, Bento retorna. Sozinho.

Como convém a execução de ópera, o espetáculo não termina antes da mulher gorda cantar. É a praxe, é a coda. Mortos todos os que trafegavam ao redor, eis que um dia, muitos anos depois, recebe Bento visita.

Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cautelosamente, e não fiz rumor. Não obstante, ouviu−me passos, e voltou−se depressa. conheceu−me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de São José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna, naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço, era o filho de seu pai.

Almoçaram, trocaram informações, estabeleceram pequenas intimidades. Seis meses depois, Ezequiel viajou, em aventuras arqueológicas. Morreu de febre tifóide em Jerusalém. Ao receber a notícia, Bento faz uma confissão: Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.


E assim, dessa maneira asséptica, sem grandes violências físicas, termina o romance. Para leitores mais contemporâneos, faltam cenas de sangue, faltam as cenas que freqüentam as manchetes dos piores jornais, aqueles jornais que todos olhamos de relance, assim como quem não quer nada e fica bem contente ao descobrir algum podre de algum conhecido. Não que se queira o mal do próximo, mas é uma delícia descobrir que fulano entrou pelo cano. Umas doses de Schadenfreude não fazem mal a ninguém, muito pelo contrário, aliviam as dores, permitem sorrisos de satisfação, a sensação de que a injustiça diminui.


Mas, há um engano em tudo isso, as idéias estão fora do lugar, como nos alertou Roberto Schwarz. Se há falta de sangue, sobra violência. Uma violência silenciosa, que causa mais estragos que pancadas. A alegação é de que, ao marido, cabe a prerrogativa de lavar a honra. Capitolina capitulou em exílio perpetuo – apesar de nunca haver confessado a falta que lhe foi imputada. Educado pelas regras do catolicismo inquisitório, Bentinho impõe os rituais da pantomima, o comportamento do marido enganado, o visível desconsolo de quem confiou e foi traído. Em nenhum momento admite que Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. Basta−lhe ver o filho para ser tomado por sentimento nefasto, por vontades de cometer atos impróprios por alguém civilizado.


A crítica literária brasileira e internacional ainda não emitiu juízo de valor sobre Dom Casmurro. Falta um ensaio definitivo. Os "verdadeiros" machadianos preferem estudar o Quincas Borba ou o Brás Cubas, que são textos escritos com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. De qualquer maneira, cabe destacar que a fortuna critica de Dom Casmurro aumentou muito nos últimos anos. Ao lado dos escritos de Augusto Meyer e Lucia Miguel Pereira, surgiram varias teses interpretativas do romance. Em alguns desses estudos, prevalecem as perguntas clássicas sobre a suposta traição de Capitu. Traiu? Foi imaginação de Bento? Ezequiel parecia−se com Escobar? 


Mudou o rumo da conversa, o ensaio escrito por Helen Caldwell, (O Otelo brasileiro de Machado de Assis) que fez interessante comparação com Otelo, de Shakespeare. Bento, vítima de ciúme doentio, cria ao seu redor uma rede de conspiração que inexiste. O rosto de Ezequiel tem o mesmo valor de peça acusatório que o lenço teve para o Mouro de Veneza. Nos dias de hoje dir−se−ia que tratava de prova circunstancial, naqueles tempos era a condenação.
   

Outra guinada mais radical foi proposta por John Gledson (Por um novo Machado de Assis), quando insinua que, ao ver a semelhança de Ezequiel com Escobar, Bento percebeu que havia sido traído – mas não por Capitu. Por Escobar. A sua frustração não se dá pela esposa ter compartilhado cama com Escobar, mas sim por Escobar, o amigo dileto, ter trocado suores e humores com Capitu. Sentiu−se excluído. Talvez saudades do tempo de seminário. Não sei. A suspeita, assim como a traição de Capitu, é difícil de provar.

De qualquer maneira, diante do ponto básico, se houve ou não traição, o que predomina é o depoimento de Bento. É o relato unilateral do marido que se imagina enganado - e que não permite o contraditório. Em momento algum Capitu consegue se fazer ouvir. Diante da acusação, cala. Ou é amordaçada. À Capitu falta voz.

Bibliografia básica

BENJAMIN, Walter. O narrador (considerações sobre a obra de Nikolai Leskov) In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas (magia e técnica, arte e política). São Paulo: Brasiliense, 1985. v.1.  
CALDWELL, Helen. O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Cotia: Ateliê, 2002.
GLEDSON, John. Machado de Assis: Impostura e Realismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
__________. Por um novo Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 4. ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades,  1992.
__________. Duas meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
VENTURA, Zuenir. Mal secreto. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.


(Texto escrito especialmente para FACVEST (LAGES, SC) e apresentado em 19 de agosto de 2011)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

ENJOY, SING THE POOR JIM


O dia 16 de junho é uma invenção. Pior, uma celebração. Poor Jim. Nesse dia, neste longo dia, acontece a ação narrativa do romance Ulisses, escrito por James Joyce, 846 páginas na tradução do Antonio Houaiss, 888 páginas na tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Para quem gosta de literatura, ler esse texto é adrenalina equivalente a saltar de para−quedas − sem o para−quedas. Ou entrar no labirinto, a possibilidade de encontrar o Minotauro em cada página. E não há garantias de salvação, o fio de Ariadne desapareceu, riverrun (riocorrente) em cada parágrafo, em cada frase. Pobre James.

Dizem que nesse livro nada acontece, há um vazio que não se preenche. Quem é que vai querer ler um texto que esmiúça lentamente 24 horas na vida de três desajustados, três patetas, patéticos palhaços a brincar no circo, circulo, social que constituí a história desse país louco chamado Irlanda? Não há como esquecer aquele personagem do filme Inimigo intimo, quando diz: Não espere finais felizes. Não é uma história americana. É irlandesa.

Não bastasse esse anátema, depois de tantos anos, a voz de James Joyce ainda produz confusão nos leitores, eleitores dessa causa, o livro aberto em alguma aleatória página: Coloquei no livro tantos enigmas e quebra−cabeças que os estudiosos se manterão ocupados durante séculos, discutindo a respeito do que eu quis dizer, e esta é a única maneira de garantir nossa imortalidade. Imortalidade garantida queria o cara, na maior cara−de−pau, e, claro, conseguiu o intento, nem precisou fazer muita força. Ulisses é um tour de force, um terremoto, uma manifestação incontrolável da natureza, não é exagero fazer comparações com o poema The Waste Land, de T. S. Eliot, a terra devastada, desolada, isolada, abril é o mais cruel de todos os meses, embora tenha sido em junho que a traição de Molly Bloom foi revelada.     

O dia 16 de junho é um evento literário e um engano cultural. Livrarias e bares no mundo todo celebram o dia em que o casal Bloom, Leopold e Molly, casados na igreja católica, separados na cama, colocam sobre a mesa todas as cartas, todas as garrafas que produzem essa doce embriaguês causada pela descoberta que as histórias de amor (muitas vezes singelas histórias de humor) terminam mal, meu reino por uma garrafa (lata) de Guinness, disse o rei no meio da batalha, descontente porque lhe foi oferecido um pouco de irish coffee, é preciso algum anestésico para suportar a (re)ve(lação) proposta pelo family name e pelo verbo to bloom, que as almas ingênuas traduzem por desabrochar, abrir em flor, florescer, deixar de esconder, revelar. Nesses (des)vãos que surgem dentro da linguagem também significa outra coisa, um ato menos público, menos óbvio, mais sacana, mais libertador. Libertino, evidentemente. Assim como as flores jorram o pólen nesse jardim fecundado com terra e o sangue seminal de Urano, aquele que foi castrado por Cronos, o tempo, também há um jorrar literário, emocional, sobre as páginas em branco do livro, pois que ao fim e ao cabo desses destroços que são jogados diariamente na lata de lixo da História, a literatura nunca passou de masturbação, nunca foi mais do que o jorrar esperma sobre a terra infértil.


Leopold Bloom, poor Leopoldo, não passa de um corno manso, manso corno, desses que gostam de polir os chifres em público. Sua esposa, Molly, andava a dar mole, molinho, molinha, bem gostoso, bem gozoso, para Blazes Boylan, um personagem−sombra, desses que nem sequer aparecem em cena, apesar de sua importância no enredo. Foi com o amante que aprendeu a gozar, a gostar de gozar com o pau alheio, mais especificamente com o do amante, que não era o seu, a natureza não lhe deu um, mas do ponto de vista legal podia dispor, por, alocar o do marido, embora não estivesse interessada, preferia o outro, aquele que a fez ver estrelas e sinos, soma de todas as imagens agregadas ao orgasmo múltiplo, simultâneo, que se espera obter quando os corpos se completam, a língua devorando a língua do amante, beijos carnívoros, lábios que se t(r)ocam, enlevados pela música de câmara, poesia pura, a boca cheia com a porra do amante, diamante, brilho fugaz, full gás, depois do sexo, a tristeza, o voltar para casa, para o tédio, marido é não−solução para esse rima pobre, pouco nobre.   

E é disso que o livro trata, destrata, tratado de muitas convenções, acordo diplomático, melodramático, coisa para inglês ver, que a Irlanda não pode ser dissociada do Império Britânico, a força das armas impondo o God Save the Queen como música tema do reinado de Vitória. E é disso que o livro trata, retrata, retrato pendurado na parede, imagem carcomida pelo bolor de Dublin, um pesadelo do qual estou tentando despertar, como diz Stephen Dedalus, numa daquelas aulas chatas do colégio católico.

O dia 16 de junho é e não é, sendo o que pode ser ao não−ser, truques da linguagem, palavras−valises, essas que (des)carregam outros sentidos, cinco são insuficientes para contar, descontar, recontar, recortar uma boa história, mito grego re(e)scrito, prescrito, proscrito, pós−escrito pelos enganos diários. Helenizar o texto, trazer para perto a civilização mi(s)tica, o herói grego, rei da astúcia, aquele que sempre pensa antes de agir, que não dá o passo em falso, que induz o inimigo ao erro, que constrói cavalo de madeira e o oferece aos deuses no portão central da cidade. Tolo é quem acredita nos gregos, aceita presentes, pega o que está ao alcance da mão, não desconfia das ratoeiras espalhadas pelo chão.        

Enjoy Joyce, ballet de palavras, os trocadilhos trocando de ilhas, construindo barcos entre um atracadouro e outro, entre o porto e a porta do quarto, aquela que está escancarada, aquela que permite que a voz da mulher delirante se projete no espaço, a gritar sim, sim eu disse sim eu quero Sim, muitos sins, pecados na língua inglesa, monólogos da vagina, imagina a cena, e nós, os fãs de Ulisses e de James Joyce, a imaginar a história centenas de vezes, algumas diretamente no texto, outras ao ler algumas das cartas que James escreveu para Nora Barnacle, seu único amor, a mulher que fez por merecer essas quatro letras malditas. Durante algum tempo, em 1909, eles estiveram afastados, ele em Dublin, ela em Trieste, o papel e a caneta substituindo o desejo, ensejo de uma festa que só se realizou depois, muitos meses depois, quando caralho e buceta se completaram, encaixe perfeito.   

Ulisses foi publicado pela primeira vez em 1922, propositalmente lançado no dia 02 de fevereiro, aniversário do autor, edição francesa, ironias passeando impunemente pela literatura, nada é mais divertido que saber que o livro de um irlandês foi financiado por uma americana, Silvia Beach, a praia onde encalhou o volume, e publicado em França por um impressor de Dijon, cheio de erros de impressão, desses que passam décadas sem conserto. Como "plus", logo depois, o concerto joyceano foi proibido na Inglaterra e nos Estados Unidos, a repressão, como sempre, sentando o pau na obra, a famosa brochada moralista, a pior delas, porque não permite a desculpa clássica: Desculpe−me, isso nunca aconteceu antes! A repressão acontece sempre, em cada esquina mora um filho−da−puta, sem ofensa às prostitutas, que ganham o pão delas de cada dia numa atividade tão desonesta como outra qualquer. A acusação ainda ecoa na atualidade, o livro está cheio de "sujeiras", descrições sexuais, coisas feias, aquelas nojeiras que a gente só faz, quando faz, dentro do quarto, porta fechada, luz apagada, medo que alguém veja e nos conte como é delicioso.   


O retrato do artista quando jovem não exige muitas pinceladas. No intervalo entre 02 de fevereiro de 1882 e 13 de janeiro de 1941, Sunny Jim, ensolarado Jim, que muitas vezes se referiu a si mesmo como James Joyless, James sem−alegria, foi protagonista de um turbilhão de acontecimentos. Era um homem alto, magro, que tinha medo de cachorros e trovões. Segundo filho de uma ninhada de dezessete, dez sobreviventes, a mãe morrendo logo depois do último parto. Estudou em colégio jesuíta e logo percebeu que pecar era o destino dos homens e das mulheres. Freqüentava bordéis, bebia em quantidade. Leu "tudo" antes dos vinte anos. Conseguiu, com distinção, um diploma universitário (línguas modernas), iniciou o curso de medicina, que abandonou por falta de dinheiro (e de talento). Quando conheceu Nora Barnacle, em 1904, mudou de vida, que homem consegue resistir a uma mulher que lhe abre a braguilha, e com carícias, como ele mesmo escreveu, faz dele um homem? Juntos o resto da vida, só casaram em 1931. Tiveram dois filhos, Georgio e Lucia. Assistiu o enlouquecimento da filha, viu os seus livros empilhados em um depósito, sem leitores, ficou cego ao final da vida. De uma forma ou de outra, algumas tangenciando a desonestidade, isto é, o exercício do explorar impiedosamente os amigos e as pessoas que se encantavam com seu talento, conseguiu sobreviver ao inimigo que o atormentou a vida inteira: a falta de dinheiro.

Joyce é o porco−espinho dos escritores, escreveu Richard Ellmann, na famosa e fabulosa biografia, 997 páginas para contar os quase 59 anos de vida do autor de Ulisses. Diz o biógrafo: Seus heróis são heróis ressentidos – o jovem ressentido, o adulto passivo, o barba−grisalha que bebe uísque. É difícil gostar deles, mais difícil ainda admirá−los. Joyce prefere que seja assim. Simpatia inequívoca seria romancear. Ele desnuda o homem daquilo que estamos a respeitar, depois nos convida a simpatizar com ele. Para Joyce, como para Sócrates, compreender é uma luta, melhor ainda quando humilhante. Podemos nos aproximar mais dele calando os obstáculos de nossas pretensões, mas quando o fazemos ele novamente exige toda nossa coragem com sua linguagem complicada. Exige que nos adaptemos na forma como no conteúdo a seu novo ponto de vista. Seus heróis não são fáceis de se gostar, seus livros não são fáceis de ler. Ele não deseja conquistar−nos, mas que nós o conquistemos. Em outras palavras, não há convites, mas a porta está entreaberta.  

Entreaberta está a literatura depois desse vendaval. Dizem alguns tolos que o Ulisses foi o romance que acabou com todos os romances, esquecendo que o material, a matéria−prima, para essa expressão artística, para esse retrato falso, é a vida. Dizer que não há mais espaço para o romance é o mesmo que dizer que a vida foi extinta. Enquanto houver tinta e imaginação, haverá romances – novas epopéias, velhos heróis, a melancolia do corno a iluminar com novas cores o velho cenário.  É o que o poor Jim (en)canta em todos os (en)cantos, neste 16 de junho.

(Texto escrito especialmente para o Bloomsday, em Lages, 16 de junho de 2011).

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MEU IRMÃO, MEU INIMIGO

Cenário: Rio de Janeiro. Enredo: irmãos gêmeos, de profissões e posições políticas diferentes, disputam o amor de mulher doente. Esta é uma história que se repete – embora muita gente não lembre exatamente onde a viu pela primeira vez.

Escondida atrás do aviso que consta de alguns livros ou filmes (“Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, localidades e incidentes são produtos da imaginação do autor ou são usados de forma ficcional. Qualquer semelhança com acontecimentos reais ou lugares, ou pessoas, vivas ou não, é mera coincidência”), uma das tramas paralelas da novela “Viver a vida”, da Rede Globo de Televisão, está centralizada na “reinterpretação” de um dos grandes temas humanos: a rivalidade fraterna. Embora o enfoque do triângulo amoroso Miguel, Luciana e Jorge não seja original, nem pretenda sê-lo, é interessante contrastá-lo com uma observação de Jean-François Lyotard: “As relações familiares são os lugares privilegiados da tragédia”.

Talvez pensando no poder explosivo (e, ao mesmo tempo, aglutinador) das tragédias, o autor da trama televisiva adota uma posição contraria ao famoso conselho da Consulesa Elizabeth Kröger Buddenbrook, personagem do romance “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann, “É até possível que irmãos se odeiem e se desprezem; isso acontece, embora pareça horroroso. Mas não se fala nisso. Ninguém precisa saber dessas coisas”.

Ao mostrar o conflito entre os gêmeos de uma forma brutal, beirando o desagradável – como convém a um folhetim que almeja ser realista, quase fotográfico –, a trama televisiva, com um pé nas questões essenciais da modernidade, revela atrelamento com algumas “rupturas” (que não rompem com nada, embora estejam embrulhadas em papel para presente “diferenciado”). Como ninguém se engana com os interesses que movem a indústria televisiva, o objetivo maior da novela (de qualquer novela) é o índice de audiência – e isso explica, em parte, o porquê do clichê irmão bonzinho versus irmão malvado ter sido retirado de cena – a idéia é mostrar que os dois personagens são “humanos”, e isso quer dizer que são passíveis de falhas e de acertos. Unidos pela genética e separados por interesses divergentes, Miguel e Jorge, de forma ostensiva, ignoram o “Outro” e se utilizam do “amor” que sentem (ou que acreditam sentir) por Luciana para justificar ações que, em outras circunstâncias, seriam condenadas de forma veemente.

Como contraponto ao espetáculo apresentado na tela pequena, a literatura brasileira aborda a rivalidade fraterna entre gêmeos em dois grandes romances: Machado de Assis publicou “Esaú e Jacó” em 1904; Milton Hatoum retornou ao tema em 2000 com “Dois irmãos”.

Em “Esaú e Jacó”, os irmãos Pedro e Paulo são antagônicos desde o útero materno. Inteligentes, sabem que contrariar um ao outro pode render bons dividendos. Na infância, manipulam a família: “Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que deveria ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo intimo, profundo, necessário”.

Como Machado de Assis (provavelmente influenciado por Thomas Hobbes) estava convicto de que os laços sociais não são resultantes dos afetos, mas existem apenas para tornar possível a convivência social, colocou na trama um personagem para “controlar” a rebeldia dos gêmeos. José da Costa Marcondes Aires, diplomata aposentado, cavalheiro de “algumas virtudes e quase nenhum vício”, além de mentor dos rapazes, é também um esforçado professor da gentil arte da dissimulação (“... lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes”). Sob a supervisão do Conselheiro Aires, Pedro e Paulo aprendem que a educação e as boas maneiras são a continuação da violência por outros meios e que quanto mais sutil for a forma com que se pratica a destruição do Outro, maior é o grau de civilização. Como o amor e o ódio são vasos comunicantes, o exercício pedagógico e socrático sofre um desvio: os gêmeos se apaixonam por Flora, típica donzela de narrativa romântica. A moça, embalada pela doce indecisão sobre a qual dos gêmeos entregaria a sua virtude, adoece, morre e deixa a todos na saudade. Desaparecido o objeto do desejo, os irmão sublimam a dor na política (na juventude, Pedro era monarquista; Paulo, republicano). Esse novo interesse mútuo proporciona combustível para outros confrontos, para reavivar velhas brigas – e para promover o entendimento.

No romance de Milton Hatoum, a gramática é de outra ordem. Yaqub e Omar, filhos de cristãos maronitas, moradores de Manaus, rompem com a farsa fraterna aos 13, 14 anos. Em uma sessão de cinema improvisada, uma pane no gerador elétrico resulta na abertura das janelas da sala. Omar vê Lívia beijando Yaqub. Tomado pela fúria, o Caçula quebra uma garrafa e, com caco de vidro, golpeia o irmão no rosto. Os pais dos gêmeos, sem saber como resolver o problema, enviam Yaqub ao Líbano. Durante os cinco anos em que passou no exílio, como em uma versão deturpada do mito do filho pródigo, o irmão mais velho foi privado do mundo familiar. Ao voltar ao Brasil, além da cicatriz no rosto, trazia no corpo e na mente as marcas do abandono. Ciente de que precisava construir um entorno afetivo que o protegesse, depois de concluir os estudos secundários, mudou-se para São Paulo. Casado com Lívia, estudou engenharia na Politécnica da USP.

Enquanto isso, em Manaus, no início dos anos 60, Omar metia-se em confusões, freqüentava bordéis, amanhecia na rua depois de bebedeiras intermináveis.

A incompatibilidade e o ódio entre os irmãos são semelhantes a meteoritos em rota de colisão. E se intensifica quando as questões ideológicas afloram. Na analise de Arthur Nestrovski, “Yaqub, por certo, não é o único descendente de libaneses formado na Escola Politécnica da USP, com vínculos com a ditadura e fazendo negócios escusos com empreiteiros”. Em contrapartida, destoando do hedonismo que pratica, Omar percebe que há algo de errado com o país. E, de uma maneira pouco ortodoxa, talvez consequente às lições que recebeu de seu amigo Antenor Laval, reage ao militarismo, à ordem e ao progresso.

Em resposta a uma carta que a mãe lhe enviara, pedindo tolerância, Yaqub escreve que “o atrito entre ele e Omar era um assunto dos dois, e acrescentou: “Oxalá seja resolvido com civilidade; se houver violência, será uma cena bíblica”. Ao ameaçar reviver o episódio Caim e Abel, Yaqub confirma que o ressentimento e a cicatriz na face estão ardendo. Por outro lado, Omar, que nunca foi um adepto da sutileza, rompe com a trégua na primeira oportunidade: em uma das visitas que Yaqub faz a Manaus, ciente de que sangue é a única forma de pagamento que aceitará para diminuir o ódio que sente, dá uma surra no irmão. O troco não demora: acusado de conspirar contra o governo militar, Omar precisa fugir. Preso, é condenado a quase três anos de prisão.

O narrador dessa tragédia é Nael, filho de Domingas, a empregada. E um dos principais motivos da rivalidade fraterna: um dos gêmeos é o seu pai. Para o desenvolvimento narrativo, esse é um ponto crucial: enquanto Omar é egoísta demais para querer um filho, Yaqub é casado com uma mulher estéril. No jogo de contrastes entre o aparente e o escondido, e sem grandes expectativas de revelar os segredos que se escondem nas dobras familiares, Nael, ao relatar o drama familiar, emoldurada nos desdobramentos políticos dos anos 60, tenta evitar que o esquecimento tome conta do passado – mesmo nos momentos em que a história que está contando se mostra opressiva, violenta, pouco racional.


Seja entre filhos da pátria, seja entre irmãos (gêmeos ou não) que se odeiam, todo conflito fraterno é, guardadas as devidas proporções, uma forma de negar o “Outro”, de não aceitar o “Outro”, aquele que destoa da “normalidade”, pois é diferente, estranho, incômodo. No entender de Susan Sontag, “o outro, mesmo quando não se trata do inimigo, só é visto como alguém para ser visto e não como alguém (como nós) que também vê”. Para alguns segmentos sociais, aceitar que o Outro também consegue ver (as vezes melhor ou de forma mais acurada) e interagir no contexto, inclusive com posições divergentes, contribuí para ampliar o desconforto e o conflito.

A isso se acresce um dado particularmente aterrador. O ambiente familiar, na maioria dos casos, não está estruturado para entender as relações fraternas. Quando o assunto é o relacionamento afetivo entre os filhos, os pais raramente conseguem perceber sinais de turbulência. Em nome da “família”, toleram pequenas transgressões, incentivam a competitividade e ignoram que o perigo pode estar escondido em lugar bem visível. Esquecem que os filhos podem aprender a odiar – e que, por serem incapazes de aceitarem de forma natural a diversidade, inventam o inimigo. Na maioria das vezes, a paternidade/maternidade alimenta a fantasia de que os desentendimentos fraternos são jogos criados para passar o tempo, para diminuir o tédio. Assim como a Consulesa Buddenbrook, preferem esconder a sujeira debaixo do tapete; assim como o Conselheiro Aires, preferem mascarar os conflitos.

Enfim, a fraternidade é um campo de batalha, onde qualquer descuido detona minas, reaviva ressentimentos, coloca exércitos em marcha, destrói a estabilidade – e, em última análise, possibilita excelente material para os estudos literários (cinematográficos, teatrais, televisivos,...).

(TEXTO PUBLICADO EM ABRIL DE 2010, EM www.escritoresdosul.com.br)

CAIM E SARAMAGO OLHAM PARA O MUNDO

Toda vez que o gajo resolve aprontar alguma, desafinando o coro dos contentes, saem faíscas, raios e trovões – tempestades esfarelam a atmosfera outrora pacífica, coisa pequena, uns oito pontos na escala Richter, nada que a mothernidade não consiga agüentar, viver no século XXI é para os fortes (e para os fracos).

Mas, tropeçando aqui ou ali, José, também conhecido como Saramago, é uma pessoa singular, modelo de bondade, como se fosse o equivalente humano dos pandas, modelo de agressividade, como se fosse uma representação dos ursos cinzentos. Comunista por opção, ateu convicto, escritor do primeiro time, intelectual, humanista, para surpresa geral, depois de ter publicado uma obra-prima (“A viagem do elefante”), Saramago voltou à carga com “Caim”. Será que esse cara não descansa? Ou está a fazer hora, antes do “descanso final”?

Por certo, depois que os analfabetos funcionais (e religiosos) conseguirem ler (ou colorir) as 172 páginas da versão publicada deste lado do oceano, haverá manifestações maléficas – por conta dos que detestaram. Por errado, depois de se divertirem à larga com a pilhéria, alguns fãs queimarão fogos chineses.

Além disso, sem economizar emoção, sem esconder o rosto, sem medo da vida ou da morte, Saramago, através de “Caim”, fez questão de mandar ao mundo literário (e religioso) um imenso phoda-se (“com pê agá e dois dês de toddy”, segundo a alegria alcoólica do Aldir Blanc). Aos 87 anos, chama de lampião a se extinguir por falta de querosene, o escritor continua a manifestar que levará o desentendimento que mantém com deus para a eternidade – se houver essa tal de eternidade. Talvez esteja ai o motivo de ter tornado pública a sua última bravura (bravata também é bom adjetivo). Em ritmo de farra, nesses tempos em que poucas coisas parecem ter alguma importância (descontadas as sujeiras da política, as relações espúrias de produção e consumo, os rituais da barbárie), o Saramago fez questão de esclarecer que ainda sabe brincar, que ainda sente vontade de puxar o rabo do gato só para ver o tamanho do miado.

Pois é, o pandego portuga escreve como gente grande, muitos aprendizes – quando crescerem – gostariam de ser igualzinho a ele, a possibilidade de escolher com denodo e talento verbos, substantivos e conjunções em tal ordem que só restará ao leitor esboçar um sorriso maroto, aplauso sem som, o reconhecimento de que a pena é mais poderosa que a espada (como balbuciou aquele sujeito ao sentir que a lâmina estava atravessando o seu estômago).

Saramago nasceu lá nos confins do Ribatejo, quase que ninguém encontra aquele fim de mundo nas garatujas cartográficas, tão longe fica, e que sequer seria lembrado se ele lá não tivesse sido depositado pela cegonha, perdão, se os genitores, em doces agarramentos papai-e-mamãe ou “dog style”, não houvessem fornicado à grande e de tal modo que, segundo os princípios elementares da biologia, outro resultado não poderia ocorrer (quer dizer, se olharmos para a tradição religiosa, não é possível excluir a participação do arcanjo Gabriel – ou do açougueiro – na confecção do infante. É para dirimir estas questiúnculas que a ciência evoluiu, dá-lhe exame de DNA e interrogatórios em Abu Ghraib, a verdade há de aparecer a qualquer minuto – embora saiba aquele outro José, o marido fiel da “virgem” Maria, “pai é quem cria”).

Tão logo Saramago viu-se senhor de si neste mundo imenso, cheio de salamaleques e vaidades vãs, foi logo agarrando a oportunidade, não se deve brincar em serviço, pois, que chato, alguns serviços não são brincadeiras, foi logo despejando uma série de impropérios contra esse senhor vingativo e impiedoso que os tolos chamam de deus. Distribuídas pelos livros que escreveu, um pouco mais aqui, um pouco menos ali, as acusações são interessantes, algumas clamam por boas gargalhadas, outras, conseqüência de ranço doutrinário político, permitem, no máximo, uma aquiescência branda, coisa de quem não quer perder o amigo por motivo frívolo.

“Caim” é um romance simples, quase linear, de vez em quando o narrador intrometido aparece para dar algum palpite, uma observação maldosa, uma alfinetada, nada muito sério, nada que tire (muito) sangue, anedotas estão espalhadas pelas páginas do texto, quem procurar encontrará, talvez ali ao lado, em alguma frase despretensiosa, talvez lá, lá onde somente os que dominam os artifícios da tecnologia de ponta podem localizar.

Desconstruindo o gênesis, livro inicial da mitologia católica, Saramago sente prazer em tocar – com força – a ferida, o dedo a cutucar exatamente onde dói mais. Por isso, com paciência, com determinação, vai construindo “uma espécie de palácio rústico de dois pisos, nada que se pareça a mafra, a versalhes ou buckingham, em que se afadigam dezenas de pedreiros e ajudas, estes carregando adobes às costas, aqueles assentando-os em fieiras regulares”. Na primeira parte da edificação está o firme propósito de se opor ao catolicismo, ao cristianismo, aos cultos incultos da religião, a esse senhor, deus, que “não suporta ver uma pessoa feliz” e freqüentemente abandona os seus filhos ao deus-dará. Na segunda, temos o percurso histórico, sátira pontilhada por referências aos contos da carochinha, um mais tolo do que o outro, pois é fácil “comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar”, basta lembrar a sandice que foi mandar Abraão, “tão filho da puta como o senhor”, imolar Isaac, transformando o menino em cordeiro, pois, como já havia sido comprovado anteriormente no episódio Caim e Abel, deus é carnívoro, detesta dietas vegetarianas. “Santo sacrilégio, Batman!”, disse, ou melhor, não disse, entre dentes, Saramago, sabedor que ele, Saramago, jamais deixaria escapar esse tipo de citação pop, mácula capaz de estragar a reputação do velho comunista, homem sério, sóbrio, escondido atrás daqueles óculos fora de moda, sempre pronto a disparar uma frase marxista bem calibrada.

Seguindo um conceito democrático (tratar mal a todos, indistintamente), Saramago promove em seus romances um oceano de vírgulas, ondas a espera do surfista (ou do leitor) que tenha fôlego e capacidade para extrair beleza do que é, a primeira vista, apenas perigo. Além disso, para não perder a mão herética, grafa os nomes de todas as personagens em minúsculas, como se continuasse, por conta própria, uma daquelas brincadeiras elaboradas pelo e. e. cummings (outra raridade, cromo carimbado e assinado, o pedal da bicicleta, poeta/poema a nos presentear com a sensação, digo, com a angústia de que nunca, nunca, conseguiremos completar o álbum de figurinhas).

Da mesma forma que Prometeu (ou Harry Potter), aquele que escreve precisa, de uma forma ou de outra, conviver e/ou esconder a marca na testa, vingança inequívoca do apetite desse deus que se diverte torturando os habitantes da terra. Errante, o escritor viaja pelo mundo (seja real, seja inventado), contando histórias, intercambiando experiências (como escreveu o Walter Benjamin), tentando, de acordo com as suas poucas possibilidades, desrespeitar o sagrado, triturar os dogmas, transformar o amargor em piada, distinguir a vida com um pouco de criação artística. Nesse sentido, como se fosse um herói sem pátria, Caim, a bordo de um “vulgar jerico e sem guia michelin”, transita por algumas passagens/paragens do mundo bíblico, para, entre tantas coisas, descobrir que “a vida de um deus não é tão fácil quanto vocês crêem, um deus não é senhor daquele contínuo quero, posso e mando que se imagina, nem sempre se pode ir direto aos fins”.

Comprovado que deus não possui todos os poderes que se imagina, Caim, nas páginas finais do livro, passageiro da arca de Noé, aposta em um novo apocalipse. A possibilidade de extinção da vida é, segundo os parâmetros políticos, um ato ingênuo, rebeldia adolescente, pois deus, se assim lhe apetecer, há-de criar novo ciclo humano. De qualquer forma, seja pelo anarquismo de Caim, seja pela prepotência divina, o aviso é inequívoco: “memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás).

(TEXTO PUBLICADO EM DEZEMBRO DE 2009, EM http://www.escritoresdosul.com.br/)

sexta-feira, 25 de março de 2011

PORNOGRAFIA, EROTISMO E OUTRAS SACANAGENS (bisbilhotando a sexualidade feminina na literatura brasileira do século XXI)

A literatura (e a vida, em geral) encontra um significativo impasse nas distinções básicas entre pornografia, erotismo e narrativas com conteúdo sexual. Embora essas classificações sejam fluídas (muitas vezes dependentes do sistema ideológico e cultural dominante e/ou de observações subjetivas – o que significa algum tipo de vínculo com as distorções produzidas pela história pessoal de cada leitor), surpreende constatar que a ignorância supera o esclarecimento.

Luisa Coelho, no prefácio que escreveu para o livro “Intimidades”, que reúne contos de cinco portuguesas e cinco brasileiras, adota critérios clássicos para definir pornografia e erotismo: “O discurso pornográfico é aquele que torna o ato sexual transparente, revelando aquilo que na sexualidade do dia-a-dia é invisível, numa estética hiper-realista, onde as cenas descritas são mais reais que o próprio real (acumulando uma grande quantidade de sinais que acabam por afastar a realidade), e em que o sexo surge sem relação com o sujeito, sem intimidade e sem alteridade”.

Defendendo que o discurso erótico faz “uma representação verbal mais completa de Eros, com todos os seus componentes, e não apenas como uma exploração grosseira e gratuita da libido”, Luisa Lobo mostra que existe uma preocupação literária crescente para que o olhar feminino remova parte da camada de pó que está assentada sobre a literatura. Ao promover um novo foco de análise, uma maneira menos óbvia de compreender e expressar as emoções, o feminino, além de libertar a literatura de algumas de suas amarras mais fortes, coloca em xeque uma questão cultural não resolvida: os homens acreditam, inclusive por razões históricas, ter o poder de expressar qualquer opinião sem criar escândalos, além de insistirem, de forma veemente, que a pornografia e o erotismo estão adstritos ao território masculino – e isso significa que ficam “constrangidos” quando a voz com carga libidinal mais intensa é a feminina. Seja por uma questão de disputa de poder, seja por inveja (da vagina ou do poder da palavra?), o masculino sucumbe ao velho fantasma fascista e não mede esforços para sublimar as vozes menos pudicas através de rótulos expressivos, pejorativos, pouco amistosos.

Ainda no plano teórico, uma das melhores distinções sobre o tema foi publicada, nos anos 80, na revista “Primeiro toque”, da Editora Brasiliense: “erótico é tudo que excita; pornográfico é tudo o que assusta”. Entre o que assusta e o que excita corre um filete muito tênue (como comprovam as narrativas góticas e os filmes de terror), mas a vida é assim mesmo, um pouco estranha, quase contraditória, muito confusa, agradavelmente complicada.

De qualquer forma, como um adendo a este tipo de pensamento, cabe lembrar que as narrativas rotuladas como pornográficas, obscenas, licenciosas, fesceninas e eróticas estão proibidas de freqüentar as “altas literaturas”. Com as famosas exceções de sempre (Marquês de Sade, George Bataille, Henry Miller, além de uns dois ou três outros pornógrafos eméritos), a tendência geral é a de se considerar como secundária toda literatura que evoca fantasias não-verbais de caráter sexual.

A literatura brasileira, encharcada pela água e o vinho do catolicismo, também prima pela adoção desse sistema de valores. E isso, muitas vezes resulta em grandes contradições, em equívocos lamentáveis e em gargalhadas muito saborosas. Uma situação muito interessante está no fato de que, atualmente, não existe mais espaço para “marchas por deus, pela pátria e pela família”, onde eram exorcizados os demônios mais perigosos, mais tentadores. Em lugar desses rituais públicos de contrição e fervor espiritual, a modernidade adotou como mascotes, uma quantidade assustadora de aprendizes de pastores evangélicos, que, em maior ou menor grau, sempre estão dispostos a proclamar que a pornografia é o equivalente ao fim dos tempos.

Sem entrar no mérito de quem considera os “catecismos” do Carlos Zéfiro uma representação de Sodoma e Gomorra, sem esquecer que algumas mulheres sempre escreveram sobre o erotismo (ver, entre tantos, “A casa da paixão”, de Nélida Piñon, ou “Sudário”, de Guiomar de Grammont), não é possível ignorar que esse tipo de interpretação possibilita o surgimento de uma “sacanagem” muito divertida: o rótulo “pornografia” como um trampolim para (in)certas “celebridades instantâneas”. Um exemplo clássico, na linha escândalo moderado, imitação barata de “Na cama com Madonna”, foi protagonizado pela cantora Syang (quem?), que publicou, em 2003, “No cio”, um livro de contos eróticos. Apesar do título provocativo e da cara-de-pau, a moça não teve o reconhecimento público que sonhava. E isso ocorreu, provavelmente, por um pequeno detalhe: Syang escreve muito mal.

Em oposição, o livro/depoimento “O doce veneno do escorpião”, “escrito” por Bruna Surfistinha, pode ser considerado um best-seller – e, para espanto geral, a sua versão cinematográfica não será um pornô hard-core, mas um filméco “família”! Elaborada inicialmente em um blog da Internet, a narrativa contou com a ajuda de um jornalista, que a transformou em livro. E o livro se transformou em sucesso comercial. Com uma linguagem acessível aos fãs do sexo manual, a ex-garota-de-programas alterna descrições gráficas bastante verossímeis de sua vida pessoal e profissional. Sem alimentar a ilusão de que, ao final de cada noite, vai encontrar o príncipe encantado e ciente de que caiu na “maioria das armadilhas do mundo”, Bruna não quis escrever um manual sobre o aprendizado sexual ou qualquer coisa do gênero (embora cometa o pecado de dar algumas dicas). Sabe que uma história de vida vale pelo que apresenta e não pelo que ambiciona representar. No teatro que constituí o mundo “real”, poucos têm talento para representar o mundo real.

De qualquer maneira, com centenas de problemas de estrutura, inclusive o infindável número de lugares-comuns, há algo de bom no livro de Bruna Surfistinha: sem se deter em análises sociológicas ou puritanas (apesar de, em um recurso que beira a ingenuidade mais medíocre, nomear as áreas sexuais apenas com a letra inicial da palavra, seguida de reticências), descreve a falta de glamour do mundo da prostituição. Simultaneamente, reafirma em diversos momentos que a existência humana precisa estar sintonizada com a diversão e o prazer. Esse movimento de adensamento entre a experiência concreta e a negação da ilusão romântica é o que faz de “O doce veneno do escorpião” um livro interessante. Ruim, mas interessante.

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As narrativas ficcionais femininas que, de uma forma ou de outra, descrevem um pouco da vida sexual das mulheres estão se multiplicando, algumas assim assim, outras um pouco piores. Exemplos não faltam: “Meus queridos cavalheiros” (Sonia Manski), “Amadora” (Ana Ferreira) e “A dama da solidão” (Paula Parisot) são boas leituras sobre o assunto. Mas, sem negar a qualidade de outras narrativas, duas merecem ser destacadas em separado. Em “A vida sexual da mulher feia” (Claudia Tajes), o poder corrosivo do humor destrói todos os fetiches sexuais, todos os sonhos românticos. Embora a narrativa seja muito engraçada, também é muito triste – há um quê de piedade excessiva que faz mal ao leitor nesse jogo-de-gato-e-rato que é a procura de parceiro(s).

“ Calcinhas no varal” (Sabina Anzuategui) tem proposta diferente: mostrar o horror em sua forma mais primitiva, o amor. Embora haja certa semelhança com textos mais desesperados (e lembrar “Quarta-feira de cinzas”, do Ethan Hawke, não é exagero), o texto de Sabina mergulha naquele ambiente em que a mulher se submete aos caprichos sexuais do amante, ato de submissão que traz em si o desapontamento, a insatisfação, a perda do prazer. Belo texto.


(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM NOVEMBRO DE 2009, em http://www.escritoresdosul.com.br/)

VOCê LEU O LIVRO DO CHICO?


A pergunta está envolta por uma redoma retórica, mas admite o sempre bem-vindo exercício da conversa fiada, aquele que fica mais saboroso em mesa de bar, os olhos brilhando com o (ou por causa do) desfile das garrafas de cerveja, os tira-gostos que se renovam como se fossem banquetes imperiais, umas moças bonitas que entram e saem de nossas vidas sem pedir licença, o final da tarde que não tarda nem oprime. 
Então, para que essa crônica obtenha algum sentido, façamos de conta que estamos em um boteco e... perguntas possibilitam a tessitura das hipóteses, passos que damos na direção das respostas. O narrador de uma novela (quase homônima ao título acima) do Márcio Moraes Valença lança uma possibilidade: “[...] não leu. Comprou e não leu, como o livro do Jô, do Caetano e tantos outros. Sua estante está cheia de livros nunca lidos”. É uma perspectiva interessante, que nos revela o quanto é engraçada a natureza humana. Por exemplo, esse hábito, raramente salutar, de adiar projetos. Seja por convicção, seja por brincadeira, as nossas histórias pessoais estão repletas de situações em que “deixamos para mais tarde” o que, de uma forma ou de outra, não gostaríamos de fazer nem agora nem nunca. Um amigo (que odeia a indústria cultural e a contemporaniedade) costuma dizer que é preciso esperar, no mínimo, uns dez anos para saber se um livro merece ser lido. E, com essa desculpa (ou, quem sabe?, filosofia existencial), vai estabelecendo vínculos afetivos com o envelhecimento, sabedor de que a vida é muito curta para perder tempo com algumas bobagens e certos livros.

Uma outra possibilidade é a estratégia clássica do atordoamento, que começa com o iniludível “não li e não gostei”. Em seguida, cabe acrescentar alguma explicação tola, o valioso recurso de passar um pouco de anestésico sobre a ferida, “eu só gosto do Chico músico, principalmente naquela fase em que ele esbanja sensibilidade, decifrando a alma feminina”. Antes que alguém reclame ou faça sugestões, deve-se aproveitar o momento e cantarolar (bem desafinado – senão não tem graça!) algum sucesso antigo, “Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora / Me conta agora como hei de partir”. O encerramento do espetáculo deve contribuir para o exorcismo dos maus espíritos. Ou seja, com algum comentário canalha, “Você viu como aquela garçonete é gostosa?”

Claro que o livro do Chico está em um outro patamar. Há toda uma tradição intelectual familiar que não devemos ignorar. Os livros do Sergio (pai do Chico) são monumentos de interpretação sociológica, “biscoitos finos da modernidade” em um país que muitas vezes adora virar as costas para si mesmo. O filho, por sua vez, quando não está jogando futebol, dedilha umas frases musicais no violão e... como direi?, compõe umas cançonetas. Nada demais, é claro. Nada que não possa ser usado como mapa da alma lírica brasileira.
Mas não é só isso, como se não bastasse ser um protegido dos deuses, o Chico é um bom-moço, um modelo a ser seguido, e, com a ajuda de um par de olhos verdes, esbanja talento natural para atrair as mulheres – o que não evitou, depois de alguns anos de desgaste afetivo, que a mãe dos seus filhos aplicasse um glorioso pé-na-bunda do artista!

Pois é, o Chico vive cercado de fãs de carteirinha, aqueles que guardam a chama da fidelidade, da devoção e do respeito ao autor. São esses mesmos que atravessam as madrugadas devorando obscenamente o último livro do cara, suspirando, como se fosse o prenúncio de um orgasmo, diante de cada frase ou parágrafo que consideram mais interessante. São esses mesmos que, em um exame anti-doping, acusarão níveis altíssimos de intolerância à crítica e ao bom-senso.

“Ó falso Leitor, / amigo meu, meu igual, meu irmão!”, juro que guardo o teu segredo, não vou contar para ninguém, diz só para mim: você leu o livro do Chico?

Sei que você anda desencantado com a literatura, que não suporta olhar para as vitrinas das livrarias (ou para as listas dos mais vendidos). Em pilhas com trinta exemplares da mesma nulidade, destacam-se as explicações sobre como ganhar mais dinheiro, recordações sobre “os velhos tempos” e que o autor imagina terem sido inesquecíveis, recomendações sobre o caminho da felicidade, plágios diversos das idéias de Aristóteles, Platão, Sócrates, Freud, Proust e outros menos cotados, e, lá no meio da mesa, como se fosse um ingresso ao Olimpo, os olhos do leitor encontram algumas edulcoradas lições de ética – que ninguém segue, mas que sempre são citadas como paradigmas de comportamento social.

Enfim, faltam nas livrarias a leveza (no sentido empregado por Italo Calvino) de histórias que sejam convites ao prazer do texto (no sentido empregado por Roland Barthes). Em versão shakespeareana, falta “A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”. Ou melhor, significando tudo, porque é com as artimanhas da ficção que enfrentamos os conflitos desiguais que marcam a luta diária que a razão cultural precisa travar contra a razão utilitária (que, com a desculpa de que “é isso que vende”, abre um distanciamento abissal na intimidade que existe – ou deveria existir – entre o livro e o leitor, entre a tesão e a imaginação).

Nesse cenário apocalíptico, com um livro na mão, qualquer livro, todos nós parecemos anacrônicos, figuras que destoam do anti-intelectualismo vigente e das ilusões gozosas (gasosas) produzidas pelo capitalismo selvagem. Além disso (quando efetuamos esforços para considerar as demandas do mercado livreiro), corremos o risco de acreditar que entrar em uma dessas discussões sobre leitura, sobre o que ler ou deixar de lado, em vez de procurar pelo ideal iluminista de romper com a idade das trevas estamos colidindo com uma retomada da barbárie, momento em que ler, pensar e interpretar o mundo que nos cerca é uma maldição. Ou uma perda de tempo.

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Apesar das dúvidas produzidas pelas imposições ideológicas do “deus capital” (e das compensações fugazes do consumo), o livro do Chico espera pela minha leitura – e pela tua. Bem seguro entre as mãos, o volume (capa branca ou laranja, escolha você) é uma forma de anunciar o momento em que o humanismo transita entre a liquidez da retina e o pensamento concreto. Então, talvez como uma demonstração de resistência, talvez como uma forma de reforçar a esperança de que a modernidade ainda possuí espaço para a diversidade, essa é a hora de iniciar a leitura: “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. [...]”.

(TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM SETEMBRO DE 2009, EM http://www.escritoresdosul.com.br/)